Carlos Monteiro: “Não podemos nos informar sobre ultraprocessados pela publicidade” – Revista Galileu

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Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

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“Não podemos nos informar sobre os ultraprocessados pela propaganda”, diz Carlos Monteiro em entrevista durante o evento FRUTO(Foto: Leandro Martins)

Há uma década, um novo conceito alimentar tem gerado discussões acerca de seus impactos na saúde e no meio ambiente: os alimentos ultraprocessados. Com um espaço cada vez maior no cardápio do brasileiro, eles se tornaram objeto de estudo de Carlos Monteiro, médico e professor titular do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

O pesquisador ganhou renome internacional ao criticar a indústria alimentícia pela composição de comidas prontas e ultraprocessadas, ou seja, pobres em nutrientes e ricas em aditivos. Segundo as primeiras pesquisas sobre o assunto, uma dieta baseada nesse tipo de alimento pode predispor à obesidade e, consequentemente, levar ao desenvolvimento de  doenças associadas ao excesso de peso, como diabetes e hipertensão.

Para entender melhor os efeitos dos ultraprocessados na saúde humana, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), do qual Monteiro é coordenador científico, está organizando uma nova pesquisa. Trata-se do Estudo NutriNet, que quer reunir 200 mil voluntários brasileiros para acompanhar sua alimentação e seu estado de saúde ao longo de uma década, observando a relação entre a dieta e o aparecimento ou não de doenças crônicas. Interessados podem se inscrever no site do projeto.

Em entrevista à GALILEU durante o evento FRUTO, que aconteceu em São Paulo no último dia 24 de janeiro, o professor da USP explica por que devemos evitar esse tipo de alimento e fala sobre como podemos nos tornar mais consciente sobre a nossa alimentação. Confira:

Como surgiu a ideia de criar uma nova classificação alimentar, que também leva em consideração seu propósito de processamento?

A classificação NOVA foi proposta em 2019 pelo Nupens, porque o sistema alimentar tem sofrido muitas mudanças. De alguma forma, a maior parte dos alimentos que consumimos são processados. Isso se deve ao surgimento de grandes corporações na área de alimentos que, graças à tecnologia e à globalização da economia, modificaram a natureza do processamento deles.

No Nupens, começamos a perceber que uma parte dos alimentos processados era muito diferente de outros, os ultraprocessados, embora essa diferença não parecesse ser percebida pelo consumidor. Uma das distinções entre os dois é que os alimentos ultraprocessados não são feitos com base em um alimento integral, como os processados. Eles constituem um grupo de produtos que não têm um alimento importante em sua receita, mas sim ingredientes como o açúcar, o óleo, os carboidratos, as fibras, as proteínas e os aditivos. Por isso percebemos a necessidade de caracterizar este grupo de alimentos e separá-lo dos demais.

Primeiro, estávamos estudando esse processo aqui no Brasil, depois, vimos que o mesmo está acontecendo no mundo todo também. Há umas quatro décadas, ele já tinha acontecido de forma muito intensa nos Estados Unidos.

Como você avalia o avanço da discussão sobre ultraprocessados no Brasil?

Tivemos um grande avanço na área da informação com o Guia Alimentar Brasileiro [conheça aqui], um instrumento de educação importante para orientar a população sobre suas escolhas alimentares. Ele adotou a classificação NOVA e uma de suas principais recomendações é evitar alimentos ultraprocessados.

Evidentemente, nem toda a população está informada, mas isso tem mudado rapidamente. Temos visto escolas, hospitais, centros comunitários e pessoas ligadas a cultura do slow food discutindo o assunto. Hoje, há várias formas de passar pela educação alimentar. Toda unidade básica de saúde (UBS) tem esse guia e muitos profissionais estão sendo treinados para usá-los. O que complica é que há um outro sistema de educação sobre o assunto, que é a publicidade.

Como ela afeta a discussão?

A publicidade é oposta ao guia alimentar, pois faz apologia ao consumo de alimentos ultraprocessados. Esse é o grande impasse. E o Brasil não tem nenhuma regulamentação em relação a isso. A indústria não pode, por exemplo, fazer propaganda de cigarro. Além disso, ela tem restrições para fazer propaganda de bebidas alcóolicas; mas ela não tem nenhuma restrição em relação aos alimentos ultraprocessados. Isso dificulta muito.

O que os outros países já tem feito em relação à isso?

Em 2006, houve uma tentativa da Anvisa de exigir que, quando houvesse uma propaganda de alimentos não saudáveis, que na sua maioria são ultraprocessados, ela informasse que aqueles alimentos tinham muito açúcar, por exemplo, e alertasse para a obesidade.

Essa portaria até foi assinada em 2010, mas a indústria de alimentos entrou na justiça e conseguiu embargá-la e ela nunca foi aplicada. Agora, a Anvisa propôs uma advertência na rotulagem dos produtos. Outra questão que prejudica a situação no Brasil são os impostos da indústria alimentícia. Uma parte dos alimentos ultraprocessados são subsidiados.


Ultraprocessados são alimentos que não têm como base ingredientes naturais (Foto: Aline Ponce/Pixabay)

A partir de que momento a indústria passou a extrapolar da produção de ultraprocessados?

A indústria de aromatizantes foi fundamental. Hoje, ela tem mais de 2 mil aromas — de qualquer coisa que você imaginar —, permitindo que a indústria reúna ingredientes baratos como carboidratos, proteínas e gorduras. Toda a parte sensorial dele é obtida com os aditivos. Eu diria que esse grande salto dos alimentos ultraprocessados se deu com o avanço da tecnologia de alimentos e, em particular, com o desenvolvimento dessa indústria de aditivos e aromatizantes que é altamente sofisticada.

Com a substituição do ingrediente principal pelo aroma, seja de pistache ou amêndoas, por exemplo, você reduz o custo da produção do seu produto. Outro ponto importante é a globalização da economia, que permitiu a criação de commodities, como o óleo de palma, e alimenta toda uma industrialização da agricultura que prejudica o meio ambiente.

Eu diria que os ultraprocessados surgem com o avanço da tecnologia dos alimentos, sobretudo os aditivos; a globalização da economia, que permitiu a compra de ingredientes ultraprocessados a preços muito baixo; e toda a globalização das vendas. Isso tornou os ultraprocessados extremamente lucrativos e competitivos. Todas essas variáveis — e a falta de política regulatória — explicam por que o consumo de alimentos ultraprocessados é cada vez maior.

Quais consequências do consumo de ultraprocessados já foram observadas na nossa saúde?

Tudo o que você encontra no ultraprocessado é favorável à obesidade: baixa saciedade, poucos nutrientes, poucas proteínas. As pessoas comem mais porque não encontram os compostos necessários para se satisfazer. Além da composição, a palatabilidade, a propaganda e o preço também influenciam numa maior taxa de obesidade e, com isso, há uma série de doenças relacionadas, como diabetes, vários tipos de câncer, artrite, hipertensão e síndrome metabólica.

Precisamos de mais pesquisas sobre o assunto, que é recente [o conceito de ultraprocessados surgiu há cerca de uma década], mas as que temos já são suficientes para que sejam feitas políticas de redução do consumo desses alimentos ultraprocessados.

O que as pessoas podem fazer individualmente até que políticas regulatórias sejam instituídas?

Não podemos nos informar sobre os ultraprocessados pela propaganda, que infelizmente é única fonte de informação para muitas pessoas. É necessário encontrar novas fontes de informação e, com isso, dedicar mais tempo pensando no que ela vai comer, em qual é a importância dela fazer esse tipo de escolha, além de questionar, por exemplo, quem produziu o alimento. “Consumindo esse alimento eu estou estimulando quem? Eu estou gerando emprego? Eu estou gerando distribuição ou concentração de renda? O produtor está agravando as questões ambientais?”

As pessoas precisam se conscientizar sobre o mundo em que vivem hoje. O sistema alimentar também mudou, não é mais o mesmo da geração de seus avôs e bisavôs. Com o Guia Alimentar, que é uma via de informação, procuramos empoderar as pessoas para que elas possam fazer escolhas mais saudáveis.

O que há de particular na situação brasileira?

O que é interessante é que, no caso do Brasil, você tem dois sistemas alimentares convivendo juntos. Além da indústria dos ultraprocessados, ainda temos agricultores produzindo arroz, feijão, hortaliças; e produtores fazendo queijo, pão e conversas simplesmente processadas.

Quais são os caminhos para tornar mais saudável a alimentação da população brasileira?

Há um processo de longo prazo, que é o da conscientização das pessoas; e outro mais curto, que são as políticas públicas, mas dependem muito do governo vigente. Hoje, temos um governo muito difícil. Na saúde pública, temos que nos agarrar a janelas de oportunidade, como essa proposta sobre a rotulagem nutricional, já usada em vários países. De repente, temos um espaço para fazer uma política pública que possa ajudar nisso. Temos que atacar de todas as frentes.

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