Como rótulos de ultraprocessados influenciam na alimentação de crianças

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A obesidade no Brasil avança a cada ano. Entre adultos, ela chega a quase 20% da população. Já o sobrepeso atinge mais da metade dos brasileiros adultos. Porém, os dados mais alarmantes estão relacionados à obesidade infantil.

Hoje, cerca 16% das crianças brasileiras são obesas e 35% têm sobrepeso. Para se ter uma ideia, 30 anos atrás esses índices estavam respectivamente em apenas 4% e 15% ― ou seja, houve um salto de mais de 20 pontos percentuais. Hoje, uma em cada três crianças está com sobrepeso.

Nutricionistas, nutrólogos e pediatras elencam diversos problemas que agravam a obesidade infantil. Uma cartilha da Fiocruz cita fatores como falta de atividade física, ansiedade, depressão, fatores hormonais ou genéticos e, principalmente, consumo demasiado de alimentos gordurosos

Nesse sentido, uma pesquisa do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) em conjunto com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) revela a dificuldade de pais e filhos terem acesso às informações reais de produtos industrializados e ultraprocessados — formulações industriais que contêm pouca comida de verdade em sua composição, segundo definição do Ministério da Saúde.

A pesquisa, realizada em agosto com quase 70 crianças, investigou quais são os alimentos e bebidas ultraprocessados preferidos pelo público infantil e, principalmente, o que ao certo esse público levou em consideração para a escolha. Foi constatada uma enorme influência de estratégias de marketing, que o estimula a consumir aqueles produtos. 

De acordo com as crianças que participaram, alimentos ultraprocessados não só chamam mais atenção como também estão entre os seus lanches favoritos para consumir na escola. A maioria das crianças listou sucos de caixinha, refrigerantes, iogurtes industralizados, salgadinhos, frutas, bolos ultraprocessados e bolachas recheadas entre as opções preferidas de lanches. 

Apesar de as frutas ficarem em segundo lugar nas opções mais mencionadas de alimentos, bolos industrializados e bolachas foram as preferidas de crianças de classes sociais mais baixas, e as frutas apareceram só em quarto lugar. 

Além disso, a pesquisa questionou o que mais chama atenção em um alimento ultraprocessado. As crianças citaram que o produto precisa ter cores vibrantes e chamativas, apresentar informações sobre sabor, ter brindes e personagens nas embalagens. 

Em outra etapa do estudo, foi a vez dos pais de listarem os alimentos que dão aos filhos. Entre as opções listadas pelos voluntários, estão biscoitos e bolachas, bolos e bolinhos, salgadinhos, pães e bisnaguinhas, sucos industrializados, bebidas lácteas, achocolatados e iogurtes ultraprocessados.

Além disso, 83% dos pais afirmaram que as crianças consomem diariamente alimentos e bebidas industrializados, e que a opinião das crianças na escolha do alimento e da bebida é muito importante. 

Esther Moreno Martinez / EyeEm via Getty Images

Qual o problema dos ultraprocessados?

Os dados revelam questões preocupantes que influenciam diretamente na saúde e bem-estar das crianças. O principal deles é relacionado aos rótulos de produtos voltados para o público infantil. 

“A grande maioria dos produtos citados foi industrializado e ultraprocessado. Mas eles não deveriam ser a base alimentar de ninguém, ainda mais de crianças”, disse a nutricionista do Idec Laís Amaral, acrescentando que estas crianças e pais são induzidos a escolher esses produtos pouco saudáveis, uma vez que as informação não são claras e a embalagem é indevidamente chamativa. 

Segundo Amaral, os próprios pais relataram que não costumam ler informações dos rótulos de produtos que compram para seus filhos. Aqueles que leem reportaram dificuldades em compreender e encontrar as informações. “Eles não entendem termos técnicos ou as letras miúdas”, disse. “Por essa dificuldade em compreender as informações, a maioria se informa pela parte frontal da embalagem, que tem alegações como ‘rico em fibras’, o que a gente entende como publicidade.”

Para a nutricionista, o estudo traz uma conclusão importante de que é preciso fortalecer a regulamentação na publicidade infantil. “Já temos muitas publicidades na TV, nas mídias e até na escola. Mas a publicidade no rótulo é mais problemática porque ela impacta na hora da compra, bem no momento de seleção. Há uma clara interferência.”

O problema disso é que o consumidor acaba comprando alimento que ele considera correto, mas na verdade, não é nada saudável. 

Como o estudo apontou, as crianças também interferem na escolha dos alimentos. E elas, é claro, priorizam alimentos ultraprocessados, principalmente por eles serem mais saborosos e chamativos. Afinal, se o paladar falasse mais alto, quem escolheria uma maçã em vez de uma bolacha recheada lotada de açúcares, corantes chamativos e, de quebra, ainda dá um brinde à criança?

Ambiente favorece ultraprocessados, e não os naturais

A publicidade direcionada ao público infantil é considerada abusiva de acordo com o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor uma vez que “ela se aproveita da deficiência de julgamento da criança”. 

Porém, o que se vê nas gôndolas dos supermercados é uma variedade de marcas que usam e abusam de embalagens chamativas e pouco informativas. Por outro lado, comidas saudáveis, como frutas, cereais integrais, legumes e verduras não têm o mesmo apelo, nem a mesma durabilidade ou preço ― o que acaba estimulando o consumo de alimentos não saudáveis, principalmente entre as classes mais baixas. 

“Se tem um ambiente que favorece ultraprocessados e não os in natura, precisamos desestimular isso, fazer rótulos com informações verdadeiras e melhorar o ambiente alimentar já nos supermercados”, considera Laís Amaral. 

Um projeto que pode mudar isso e obrigar a indústria a fazer rótulos “mais sinceros” está em avaliação na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Depois de anos de negociações entre órgãos de defesa do consumidor, indústria e governo, a Anvisa apresentou um novo modelo de rotulagem nutricional que ficará na parte da frente das embalagens.

A principal mudança é o design escolhido no formato de lupa na parte frontal. De acordo com a agência, será obrigatório nos rótulos de todos os alimentos embalados que tiverem quantidade excessivas de açúcares, gorduras ou sódio escondidos. Ainda está aberta a consulta pública sobre o tema. 

Apesar das mudanças nos rótulos, o Idec avalia que é preciso mais esforço do governo para conter a publicidade infantil.

Há um enorme gap entre a lei e o que vemos nos supermercado. Um ponto importante é conscientizar as pessoas de que esse tipo de publicidade é abusiva. Você não deveria estar sendo exposto.Laís Amaral, nutricionista do Idec.

Como ter uma alimentação saudável e equilibrada

A nutricionista aconselha os pais a terem atenção à parte traseira do rótulo, onde se encontram a tabela nutricional e a lista de ingredientes, que está em ordem decrescente, o que significa que os primeiros ingredientes listados são os que mais compõem o alimento. 

Outra dica é prestar atenção em quantos ingredientes esse produto leva. “Se ele tiver cinco ou mais ingredientes, inclusive alguns com nomes estranhos, provavelmente ele é ultraprocessado”, esclareceu Amaral. 

Uma alimentação saudável, tanto para criança quanto para adulto, é rica de alimentos in natura, ou seja, abundante em verduras, legumes, grãos, frutas, cereais, feijões, entre outros, conforme o Guia Alimentar para a População Brasileira. Já os ultraprocessados, que geralmente são ricos em açúcar, sódio e gordura, devem ser evitados ao máximo.

Consuma alimentos que você saiba a procedência, de onde ele veio. A gente sabe de onde vêm o arroz e o feijão, a carne, as frutas e saladas. Mas não sabe como é feito um refrigerante.Laís Amaral, nutricionista do Idec.

Ela ainda alerta para “pegadinhas” de produtos que tentam parecer saudáveis. “Sucos de caixinha ou de pó podem ser até piores do que refrigerante”, disse. “Cuidado com as alegações como ‘rico em cálcio’ ou com os famosos ‘fortificados’. Eles continuam sendo industrializados.”

Contudo, a nutricionista avalia que não se pode culpar o consumidor. “O ambiente realmente não favorece, ele está sendo estimulado a comprar ultraprocessados. Além de serem práticos, esses alimentos são hiper-palatáveis.”

“A epidemia de obesidade é combatida com política pública, e os rótulos têm muita importância nisso. Hoje, tudo é feito e pensado para que a gente os considere mais baratos, práticos e mais gostosos. É complicado nadar contra a maré”, finaliza. 



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