Comunidade LGBT de Santos, SP, cobra ser ouvida pelo poder público: ‘Não somos ETs’ | Eleições 2020 em Santos e Região

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    Técnico de enfermagem, Bryan Henrique Farias de Souza, de 21 anos, estava em um hospital público de Santos, no litoral de São Paulo, quando foi alvo de reclamações por parte dos demais pacientes, pelo fato de estar de mãos dadas com a namorada. “Disseram que a gente ia ofender as crianças, que era uma vergonha as crianças verem a gente juntos”, conta Bryan.

    Um episódio como esse poderia causar estranhamento, caso se tratasse do relato de um homem heterossexual, mas, para a população LGBT, lidar com esse tipo de situação de preconceito faz parte da rotina, conforme relatam moradores de Santos em entrevista ao G1.

    “Também já aconteceu de estarmos na rua e um homem mostrar o pênis para a gente, de perseguirem a gente”, diz Bryan, transgênero não-binário, ou seja, que não se identifica nem como homem nem como mulher.

    Bryan e a namorada, a produtora cultural Raphaella Gomes, de 19 anos, estão entre os 28 eleitores de Santos aptos a votar com o nome social na eleição de 2020. No último pleito, em 2018, a possibilidade era uma realidade para apenas 19 eleitores da cidade, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

    Com a ajuda de uma advogada, o casal conseguiu, em janeiro deste ano, a retificação de seus nomes nos documentos.

    “Depois de um ano, a gente conseguiu a certidão de nascimento com os nossos novos nomes. Tem pessoas que perguntam e falam coisas preconceituosas, mas podemos provar que a gente existe e que aquele é o nosso nome”, conta Bryan, que criou, junto com a namorada, o projeto sociocultural ‘Transceda’, cujo objetivo é promover a educação da população sobre a temática da diversidade sexual e de gênero.

    Articulado nas redes sociais, projeto sociocultural ‘Transceda’ busca educar a população sobre a temática da diversidade sexual e de gênero — Foto: Divulgação

    Bryan diz que sente falta da presença de jovens, negros e LGBTs no Executivo e no Legislativo santista. “Eu espero que eles [candidatos eleitos] ouçam as nossas demandas e que façam com que as coisas realmente saiam do papel”.

    Travesti não-binária, Raphaella irá às urnas pela primeira vez este ano. Em sua visão, é preciso que os espaços da cidade sejam adequados aos corpos trans.

    “Eu espero que a saúde funcione, que a educação funcione, e que tenha mais programas adequados para os nossos corpos, não só no ambiente de trabalho, mas para as faculdades, espaços públicos, e que a gente seja bem-atendido, que não fique só um cartazinho na parede. Que tenha uma curadoria, algo que eduque os funcionários públicos a nos receber com equidade”.

    ‘Aqui não é lugar para isso’

    “O que um corpo LGBT do Canal 5 precisa é diferente do que um corpo LGBT da Zona Noroeste precisa”, diz o fotógrafo Andrey Haag, de 27 anos, morador do bairro Vila São Jorge, na Zona Noroeste de Santos.

    Homossexual, Andrey diz esperar que os próximos candidatos eleitos estejam abertos a ouvir os moradores LGBTs do município. “Eu não quero ir a um restaurante e ser comunicado pelo garçom que, mesmo pagando, você precisa levantar e sair dali. Que punição eles vão ter? Isso não pode acontecer. Isso não aconteceria com um cara hétero, branco, de classe média”.

    Ele conta que, uma vez, estava andando na rua de mãos dadas com o namorado, no bairro Gonzaga, quando, de repente, ambos começaram a serem xingados. Na ocasião, um carro da polícia passava pelo local e eles acabaram sofrendo violência verbal dos próprios policiais. “Eles disseram: ‘vocês não deveriam estar aqui demonstrando isso, aqui não é o lugar de vocês. Se vocês querem afeto, vão lá para o fim do Itararé [bairro de São Vicente], aqui não é lugar para isso'”.

    Andrey Haag diz esperar que os próximos candidatos eleitos em Santos estejam abertos a ouvir os moradores LGBTs — Foto: Juliana de Freitas

    Falta de representatividade

    Coordenadora executiva da Comissão Municipal de Diversidade Sexual de Santos, a advogada Daisy Christine Hette Eastwood, de 60 anos, afirma que, no Brasil, a dificuldade de representatividade da população LGBT atinge todas as esferas do poder público.

    “Eles [legisladores] têm de se acostumar a conviver conosco e ver que não somos extraterrestres. Somos seres como eles, como os heteronormativos. A falta de representatividade e de conscientização é que leva a gente a brigar por direitos judicialmente, por conta da omissão dos órgãos legislativos”.

    Segundo Daisy, que atua como voluntária na comissão, uma das expectativas para o próximo ano é conseguir montar um conselho de diversidade sexual no município.

    “A gente está na luta para montar o conselho e começar um trabalho mais específico de chamamento da população LGBT para a militância nos fóruns municipais de discussão. Com o conselho, nós podemos organizar esses fóruns com o apoio do município”, explica.

    Daisy conta que já passou por inúmeras situações de preconceito por ser lésbica. “Nas ruas, ou no shopping, eu não posso andar de mãos dadas com a minha namorada sem que a gente veja aqueles olhares estranhos ou ouça algumas piadinhas. A gente só vai acabar com esse tipo de informação equivocada levando conhecimento para esse mundo heteronormativo”

    No site da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, há uma cartilha que faz um panorama sobre questões ligadas à diversidade sexual e explica o significado de termos como sexo biológico, orientação sexual, gênero e LGBTfobia.

    Confira algumas definições abaixo:

    • LGBT – Sigla internacionalmente utilizada para se referir aos cidadãos e cidadãs lésbicas, gays, bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens transexuais.
    • Homossexual (gays e lésbicas): Pessoa que se sente atraída afetiva e/ou sexualmente por pessoas do mesmo sexo/gênero.
    • Bissexual: Pessoa que se sente atraída afetiva e/ou sexualmente por pessoas de ambos os sexos/gêneros.
    • Mulher transexual: É aquela que nasceu com sexo biológico masculino, mas possui uma identidade de gênero feminina e se reconhece como mulher.
    • Homem transexual: É aquele que nasceu com sexo biológico feminino, mas possui uma identidade de gênero masculina e se reconhece como homem.
    • Travesti: Pessoa que nasce com sexo masculino e tem identidade de gênero feminina.
    • Transgênero: Terminologia normalmente utilizada para descrever pessoas que transitam entre os gêneros. Contudo, há quem utilize esse termo para se referir apenas àquelas pessoas que não se identificam nem como travestis, nem como mulheres transexuais e nem como homens trans.

    O G1 Santos está produzindo, diariamente, reportagens especiais sobre as eleições 2020. Além de entrevistas exclusivas, levantamento de dados e serviço, os internautas podem acompanhar matérias de assuntos de interesse público e que preocupam bastante a população dos nove municípios da Baixada Santista e do Vale do Ribeira. Para acompanhar toda a cobertura, basta acessar a página especial.



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