João W. Nery conta como é ser transidoso no Brasil

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Em um país onde a média de idade de travestis e transgêneros é de 35 anos, um livro que trata de pessoas trans idosas pode ser considerado praticamente ficção científica. Mas não é! Velhice Transviada, de João W. Nery é a afirmação pioneira – como comumente aconteceu na vida de João – sobre a relação de longevidade e transgeneridade.

João  foi o primeiro homem trans que se tem notícia no Brasil. Pelo menos o primeiro a fazer os procedimentos médicos dos quais hoje se falam abertamente. Viveu até os 68 anos de idade e resolveu neste livro, que sai pela editora Objetiva, fazer dele um espaço de memórias e reflexões. A primeira parte é um passeio sobre sua vida até o diagnóstico de câncer. Na segunda parte, João entrevista nove transidosos (pessoas trans e travestis com mais de 50 anos), ao mesmo tempo que acompanhamos a parte do seu tratamento (quimioterapia e radioterapia).

Lucas Ávila/Divulgação

Mesmo as memórias da primeira parte do livro são contadas sob a lente da velhice. João fala de seu pai e sua mãe, mas lembrando as dificuldades que a vida longeva traz. A dificuldade de caminhar, a vista que vai embaçando pela catarata, o esfíncter que teima em ganhar independência. Acrescente a isso a necessidade de lidar com as próteses de silicone, os efeitos de anos tomando hormônios ou a necessidade de voltar para a casa de parentes, porque não consegue mais viver sozinho, e por isso volta-se para o armário, e temos a segunda parte do livro.

Não devemos esquecer que estes são os primeiros transidosos, então ninguém sabe como é envelhecer sendo trans. Aliás, ser o primeiro sempre foi um destino na vida de João. Primeiro homem trans, para nossa sorte, ele também foi um homem inteligente e um grande escritor e pôde deixar para nós a obra-prima que é Viagem Solitária, sobre sua jornada até se tornar João, o que inspirou o personagem Ivan, na novela A Força do Querer.

Divulgação

Sua conversa com outros transidosos é de uma lucidez sem tamanho. Cada um traz sua história e experiência. Suas inseguranças, seus portos seguros e os ataques que a sociedade agora lhes dedicam tanto pela idade avançada quanto pela incompreensão com seu gênero. Aliás, uma coisa que me tocou particularmente foi a questão das pedradas. Literalmente, pedradas. Me perguntei quando foi a última vez que joguei uma pedra em alguma coisa e descobri que nem me lembro. Mas é impressionante como pedrada é algo tão comum na vida de pessoas trans. Apedrejam as pessoas, apedrejam suas casas, apedrejam as pessoas que amam… Sinceramente, não consigo entender.

Entretanto, a vida de João trouxe para ele um grande amor que esteve ao seu lado até o fim, Sheila Salewski. Ou seja, a velhice também nos dá outras coisas além dos ossos frágeis e a dentadura. Ela também dá a alegria de dizer que temos um amor há 30/40/50 anos e que ainda amamos esta pessoa. Ou a graça de sermos acolhidos num momento em que, infelizmente, não há grandes expectativas de reversão das limitações. E se lembrarmos que trans e travestis morrem antes de completar 40 anos, o tempo em si já pode ser considerado um prêmio.

João faleceu dois dias depois de terminar este livro. Isso é significativo demais, sobretudo pelas suas palavras sempre de elogio à vida. Inclusive, termino com a conclusão da obra, o que torna vã qualquer coisa que eu diga diante deste lindo trecho:

“O que desejo é que ele seja lido pelo maior número de pessoas e ajude a desconstruir a imagem caricata que se faz das pessoas transidosas. Todos nós nascemos gente, o resto são rótulos. Como diz minha amiga Letícia Lanz: ‘Se a transgeneridade não fosse considerada transgressão do dispositivo binário de gênero, não haveria estigma, nem preconceito, nem patologia, nem armário. É a norma que cria a infração da norma. Se ela for extinta, deixa de haver infração’”.

Agenda especial

– A Diversidade Cristã Brasília, junto com a UnB e Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT, convida a todxs para o Simpósio Teologia Inclusiva: um Debate Inter-religioso sobre os Espaços LGBTI nas Comunidades de Fé.

Ativistas de diferentes religiões trarão suas experiências a fim de incentivar novas ações de inclusão da comunidade LGBTI nos espaços religiosos. Ele faz parte da Semana Universitária da UnB 2019 e acontecerá no dia 27 de setembro, a partir das 9h, no Auditório do Sintfub, prédio Multiuso 1.

– Manhã é o espetáculo teatral do Grupo Domo. Nele há a busca pelo amadurecimento pessoal e a tentativa de resolução dos conflitos relacionais, construídos a partir da perspectiva de dois homens que se amam e procuram renovar as esperanças no outro e na vida.

A peça se passa durante uma madrugada repleta de surpresas e decisões até o amanhecer que traz a possibilidade de se fazer e ser algo novo. Dias 27, 28 e 29 de setembro, às 19h30, e domingo, 19h, no Teatro Funarte Plínio Marcos (Eixo Monumental). Ingressos a R$ 20 (inteira). Doação de 1kg de alimento não perecível garante meia-entrada. Não recomendado para menores de 16 anos.



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