Reforma ou Revolução: o dilema da classe-média em Zé Dirceu

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Caso se fale dos dilemas da esquerda brasileira marcantes em todo o período de redemocratização, se aponta para um dilema não da “esquerda” entendida como amplo leque de forças sociais, mas das classes-médias urbanas. É isso que, dentre tantas outras reflexões, Dirceu apresenta no 1º volume de suas memórias.

Devemos optar por uma solução de ruptura, revolucionária, como ele tentou depois de seu primeiro exílio em Cuba, voltando ao Brasil para participar de um novo grupo armado, o Molipo? Ou se deve optar por uma solução de conciliação, de diálogo programático, baseado no conhecimento técnico dos quadros da esquerda para dirigir por dentro um processo de reformas, mas não de revolução?

O prosaísmo na Revolução Brasileira

Apesar de que, talvez para muitos, a biografia de José Dirceu parecer algo excepcional, quem lê seu texto sem as ilusões revolucionárias, vê que estas são bastante características dessa mesma classe-média. Ele volta de Cuba uma segunda vez, com um dinheiro razoável (diz ser cerca de 50 mil reais hoje), se instala confortavelmente como um pequeno burguês no interior do Paraná. Casa, tem filhos e, fora o fato de ter passado por cirurgia plástica para mudar seu rosto, e, durante anos, conviver com uma identidade falsa e uma história pré-fabricada, sua vida é absolutamente comum.

Ele seria um agente avançado de Cuba no país, porém sem contato com os cubanos e mesmo com outras lideranças que voltam com ele. Como fez em sua segunda volta à Cuba, quando largou as armas, ele era alguém que traria informações sobre o Brasil, informações de quem está vivendo o processo político por dentro. Mas nessa altura o próprio dinheiro que recebeu não deixou de ser uma espécie de liberdade que ganhara do governo cubano, baseado mais em laços de lealdade do que de compromisso político explícito. Como resultado, as informações que colhe in loco o ajudam mais a estreitar laços com quem depois viria a formar os quadros políticos do Partido dos Trabalhadores, como a família Abramo em especial, do que propriamente alimentar de informações Fidel Castro e seus ministros.

A história mais “espetacular” desse trecho de sua vida é quando, depois da anistia, em 1979, ele conta para a mulher quem ele realmente era. Ela não chega a ficar chocada, o ajuda quando pode, mantém os laços de lealdade por causa da família constituída, porém não há mais amor ou razão para o casal viver junto. Sua esposa simplesmente comunica que casou com outro homem e não aquele que agora ela conhecia. E Dirceu volta para Cuba, desfaz as cirurgias, e já tem seu grupo formado que depois comporia suas alianças no partido recém formado.

O que choca, na verdade, é sua posição quando, relatando seus anos de extrema fragilidade política e social na liderança de um movimento armado que considera utópico (antes do casamento, antes da cirurgia plástica, ainda na liderança do Molipo), pergunta se não seria melhor se ele, ao invés de portar arma e identidade falsa, não conseguisse articular com os políticos do MDB uma resposta à ditadura, já ali pavimentando o caminho para a futura democracia. Claramente parece uma reflexão de um José Dirceu mais velho, porém as vitórias da oposição institucional ao regime militar depois de 1974 e a vida inglória de clandestino destinado à luta armada, talvez tenham acendido uma dúvida no jovem militante.

Novamente, o dilema das classes-médias: a revolução ou a conciliação? A tomada do poder pela força ou a criação de um governo ou um grupo político tecnicamente preparado, articulado nas instituições e na sociedade, capaz de fazer um governo possível e não o sonhado? Isso se repetirá na própria prática partidária, como exemplificado no caso da aliança com o PDT no Rio, com Itamar e o PSDB de Covas. Todas as dissensões políticas dos grupos burgueses dentro do sistema partidário acontecem dentro dessa dupla perspectiva, muitas vezes indecidível.

Como pode ser notado nas “memórias do cárcere” escritas por José Dirceu, a história do PT institucional, ou seja, a partir do momento que o partido começou a se legitimar não só como veículo de luta social, construído em resposta direta aos anos autoritários, mas de luta eleitoral, com a eleição de prefeitos, deputados, senadores e, logo depois, ocupando o executivo de estados importantes e o executivo federal, é uma história que, ao mesmo tempo em que reescreve a tradição do trabalhismo no Brasil, apaga invariavelmente o tipo de relação que os antigos quadros oriundos do velho PTB tinham com as Forças Armadas.

Os bastidores das alianças eleitorais

O último líder nacional desta facção foi Leonel Brizola. Hoje, vemos apenas forças isoladas que procuram recompor esta tradição, como no caso do deputado federal carioca Paulo Ramos ou, de maneira bastante diferente, mas com o mesmo fim, o antigo presidente do PCdoB, Aldo Rebelo. A saída dos dois políticos dos partidos onde militaram por décadas (Paulo Ramos depois voltaria ao PDT) demonstra a dificuldade geral do setor político à esquerda de lidar com o antigo trabalhismo, associado vulgarmente ao chamado caudilhismo ou ao populismo, e com as relações entre a esquerda e os militares.

Acima de tudo, essas histórias resumem partes cruciais da atual história política nacional. José Dirceu narra as dificuldades para criar uma aliança de seu partido com Leonel Brizola. A aproximação com o PDT visava a ocupação do Partido dos Trabalhadores da política regional carioca. Vladimir Palmeira, enfaticamente anti-brizolista, se recusou reiteradamente a qualquer proposta de composição numa chapa para disputar o governo do Estado. Como líder histórico do PT no Rio de Janeiro, poderia tanto encabeçar a chapa de governador com um pedetista de vice ou o contrário. O resultado foi uma polarização excêntrica: Palmeira candidato a governador com apoio de parte de seu partido; do outro lado, Benedita da Silva surgia como vice numa chapa encabeçada por Anthony Garotinho. A ala petista que prevaleceu levou Benedita à vitória com Garotinho, ainda que a aliança tenha se mostrado bastante ambígua em seus resultados nos anos subsequentes.

A reiterada recusa do PT carioca a compor com Brizola e sua morte poucos anos depois levaram a uma dupla anomia: o PDT se esfacelou sem uma liderança forte e o PT não se firmou no estado, desconsiderando a ampla contribuição pedetista ao Rio de Janeiro e como, dos Cieps ao Sambódramo, até à democracia participativa da prefeitura de Saturnino Braga, passando por extensas políticas sociais, o PDT estava enraizado no imaginário político carioca, em especial nas áreas mais pobres, nas favelas, na Baixada Fluminense e no interior do estado, como mostra neste caso o sucesso eleitoral experimentado pelo casal Garotinho.

Uma política de conciliação entre o “novo” e o “velho” trabalhismo poderia ter fortalecido ambos. Na ausência de sua maior liderança, o PDT teria um partido cada vez mais forte institucionalmente em âmbito nacional, o PT, como amparo, e a herança pedestista nortearia as políticas para a região, até porque o “novo” trabalhismo, com o passar dos anos, foi se distanciando de sua repulsa a herança de Getúlio e cada vez mais se afeiçoando a ela, em especial depois da ocupação petista do executivo federal. As consequências da dupla anomia carioca são relativamente conhecidas e não cabe aqui tecer maiores considerações a respeitos de suas consequências para o estado.

O PT fabrica sua hegemonia

O fato é que, sob a liderança da ala majoritária do PT, onde Dirceu figurou como um dos principais protagonistas, desde o início dos anos 1990, a orientação era de conciliação com quadros políticos não palatáveis para boa parte da nova organização trabalhista que surgia. Com o amplo repúdio a presidência de Fernando Collor e o apoio a seu impeachment, se seguiu uma divisão em nível nacional. Itamar Franco era igual a Collor ou diferente?

Como no Rio de Janeiro, houve um racha no Partido dos Trabalhadores, o primeiro em que se desligaram antigos membros, como os que compuseram logo depois o PSTU e o PCO, por exemplo. A ala majoritária do PT, também dividida, queria, de um lado, marcar posição contra o vice de Collor e não aceitar nenhuma forma de acordo. Essa foi, em linhas gerais, a posição vencedora do partido, ainda que não oficialmente. Um estranho quadro foi criado: devido a aproximação de setores do PT a Itamar Franco, Luiza Erundina compôs o novo governo[1]. Porém um amplo espaço foi deixado em aberto, logo ocupado pelo PSDB e por sua equipe de economistas que formularam o Plano Real.

O que se entrevê nas memórias de José Dirceu é uma lamentação. Caso a tese “Itamar = Collor” não tivesse tanto apoio da base petista, o partido poderia ter ocupado maiores espaços no governo pós-impeachment e impedido ou refreado a ascensão do PSDB e do neoliberalismo. A falha nessa articulação se soma o tenso relacionamento PT/PDT, que viria formar a chapa presidencial para as eleições presidenciais de 1998 com Lula e Brizola.

Um dissenso no PT paulista completa todo o quadro de desarticulação da esquerda pós-Constituinte. O apoio a Mario Covas para governador de São Paulo trouxe inúmeras feridas ao partido, apesar do bom relacionamento pessoal de fundadores do PT com o político tucano. Se a aliança no Rio de Janeiro e em Brasília, com Itamar, procurava ocupar espaços no governo central, a aliança relativamente bem feita com Covas, sem maiores oposições num primeiro momento, acabou por dar lugar à hegemonia tucana no governo do estado ainda vigente, o que selou a cisão completa, no nível administrativo a princípio, entre os dois partidos.

As políticas ultraliberais adotadas pelos tucanos quando ocuparam a presidência, rechaçaram qualquer acordo, mesmo programático, entre os dois partidos. O quadro é bastante complexo: a aliança bem-sucedida se mostrou um enorme fracasso no médio e longo prazo. As alianças feitas de maneira incompleta igualmente resultaram em fracasso, mas prometiam bons resultados, em especial porque o PDT enquanto instituição pública não adotou a prática neoliberal e Itamar, como governador de Minas, fez ferrenha oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Onde o PT teve menos inclinação a fazer alianças, talvez os frutos colhidos poderiam ter sido bem melhores do que a suposta aliança “natural” com Covas em 1994.

Com a vitória do consenso neoliberal entre 1994-2002 e a desencontrada política de alianças do PT (calcada no binômio luta social/luta eleitoral, em maturação), os militares foram afastados do poder por um duplo movimento: a rejeição da nova esquerda do “caudilhismo” antigo, associado historicamente a setores chamados nacionalistas nas Forças Armadas e o próprio Consenso de Washington com suas políticas de austeridade e de entrega do patrimônio nacional, que desmobilizaram o que poderia haver de patriotismo entre a facção castrista, embora em casos isolados, como na tentativa de entrega da Base de Alcântara aos americanos, alguns elementos tenham feitos movimentos contundentes para frear a cessão do território nacional a estrangeiros.

Como conta o historiador Moniz Bandeira em seu livro As relações perigosas Brasil – Estados Unidos, o general Lessa, preocupado também com a defesa da Amazônia e da fronteira brasileira, exerceu papel de protagonista na articulação para anular os planos entreguistas de FHC. Como demonstra esse caso e também as manifestações de tipo nacionalista do general Villas Boas antes do golpe de Estado, havia a impressão de que a velha ala nacionalista, pelo menos do Exército, ainda existia. Considerado esses fatos, resta saber o que aconteceu entre 2003-2016 para as Forças Armadas definitivamente se portarem de maneira antidemocrática e antinacional, porém isso escapa às nossas pretensões por aqui.


[1] Erundina acabou saindo de forma não muito honrosa, isolada diante de um governo com fortes laços tucanos e sem apoio de sua base partidária. Haveria inúmeros outros cargos que o PT poderia ter ocupado e composto uma base mais orgânica no governo Itamar. Base de ocupação, de oposição programática, com vistas à sucessão presidencial próxima.

Esse texto faz parte da série ARQUIVOS DA DITADURA [clique aqui para ler]

Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

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