Alfabetização foi a etapa do ensino mais afetada no Brasil durante a pandemia, segundo Unicef | Jornal Nacional

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    Um dos maiores desafios das aulas à distância é ensinar crianças a ler e a escrever.

    Um olhar sempre atento, curioso, inquieto por conhecimento.

    “Eu toda hora olho para todos os ônibus. Quando alguma coisa passa, eu pergunto a minha mãe o que é”, conta João Vitor dos Santos, de 8 anos.

    Só à noite, João Vitor encontra com a mãe. Liziane passa o dia fora, trabalhando.

    “Eu chego essa hora e vou ter que limpar a casa, fazer janta para eles. Ele já toma banho só e deita para dormir. Aí acordo às 6h30, 6h15, e vou para o trabalho. Aí retorno essa hora de novo. Não tem nem como eu ensinar ele”, conta a empregada Liziane dos Santos.

    Um desafio comum a muitas famílias brasileiras. Durante a pandemia, mais de 2 milhões de crianças entre 6 e 10 anos de idade não tiveram a chance de aprender a ler e a escrever.

    Segundo o Unicef, a alfabetização foi a etapa do ensino mais afetada no Brasil.

    O Pedro, de 6 anos, não vai à escola desde o início de 2020. Em 2020, ele só teve duas semanas de aulas.

    Andreza, a mãe do Pedro, é voluntária em um projeto social de educação na favela onde mora, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela diz que é no programa que ele está aprendendo a escrever.

    “Se não fosse aquilo ali na nossa vida, as crianças hoje não saberiam nem o nome”, conta Andreza Antonieta Barreiros.

    “Ser alfabetizado envolve um trabalho quase artesanal em que o professor interage muito com a criança, acompanha o progresso de cada criança, e as crianças se alfabetizam em ritmos diferentes. Nas áreas de maior vulnerabilidade, os pais não estavam em casa, em teletrabalho, como boa parte das famílias de classe média, organizando essa criança pequena que ainda não tem autonomia para aprender, para que ela assistisse aulas na TV ou plataformas, quando os municípios tinham plataformas, ou que ela fizesse as atividades previstas. De fato, se há uma área que foi um grande desastre foi exatamente a de alfabetização”, explica Cláudia Costin, diretora do Centro de Política Educacional da FGV.

    Dois dos quatro filhos da Suelen deveriam estar sendo alfabetizados.

    “Vai fazer dois anos que não vão à escola”, afirma a dona de casa Suelen de Souza Conceição.

    Sem aulas presenciais, a mais velha, Ana Cláudia, de 11 anos, ajuda os irmãos como pode: “Eu gosto de ensinar meus irmãos. É legal. É bem aprender, porque eu estou no sexto ano, mas eu também não sei muita coisa. Mas eles se comportam sim”.

    Uma pesquisa feita durante a pandemia com pais, mães e responsáveis, mostrou que metade dos alunos durante a alfabetização, ficou no mesmo estágio ou desaprendeu o que sabia. A maioria estava aprendendo a ler e a escrever,

    Mariana Luz, diretora da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que atua no desenvolvimento na primeira infância, reforça que o ensino presencial é ainda mais importante nessa fase.

    “O desenvolvimento infantil acontece na sua máxima potência nessa fase da vida. Nosso cérebro está fazendo um milhão de conexões por segundo. O que forma, até os 6 anos, 90% do nosso cérebro é formado. A grande maioria dos alunos não tiveram suas aulas online e, para os pequenos, eles não tem nem condição de lidar com o que está acontecendo”, explica Maria Luz.

    Aos poucos, pelo país, surgem iniciativas em busca desse avanço. Em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, professores vão de casa em casa para ajudar alunos que estavam sem internet, sem apoio e correndo risco de abandonar a escola.

    “Aqui em casa era só o meu padrasto para ajudar. Mas ele só podia me ajudar no final de semana, durante a semana ele trabalhava. Era um pouco ruim para poder fazer”, conta Gabriel Eduardo Lima de Souza, de 13 anos.

    “É um desafio para o professor, realmente. Mas com esse projeto, com a proposta de resgatar isso. Você vê eles aqui não tem internet, mas eu vou estar aqui, eu vou dar o meu melhor para suprir a falta que está fazendo neles, esse acesso aos conteúdos”, diz a professora Elaine Ferrão.

    A mãe de Gabriel enxerga na educação um futuro diferente para a família.

    “Eu fico bem emocionada porque eu não consegui aprender. Estou com 33 e não aprendi. Espero o melhor para os meus filhos”, diz a dona de casa Ana Viviane Lima de Souza.



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