Assassinou amante e morreu vestindo saia

0
41

Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

.

Em um dos crimes que mais chocaram o país nos últimos anos, o cirurgião plástico Farah Jorge Farah matou e esquartejou Maria do Carmo Alves, ex-amante e ex-paciente, em sua clínica em São Paulo, em 2003. Tanto quanto pelo feminicídio em si, o caso é lembrado pelo desfecho do agressor. Preso até 2007, ele conseguiu recorrer em liberdade da condenação de 16 anos de prisão. Até que saiu uma nova decisão da Justiça. Quando isso aconteceu, em 2017, Farah se suicidou ao saber que a ordem recém-expedida era de prendê-lo novamente.

O médico foi encontrado morto em sua casa, deitado na cama, usando roupas femininas — segundo reportagens da época, o delegado do caso, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que ele usava saia, mas documentos oficiais dizem que ele usava uma calça legging.

Farah também tinha seios, como os femininos. Pouco tempo antes, havia feito um implante de silicone e começou a usar sutiã. Também aplicou próteses nas nádegas.

“Depois de estudar sua vida de trás para frente, vi que ele tinha uma questão sexual muito abafada dentro dele. Vinha de uma família típica árabe, conservadora. E era o ‘filhinho da mamãe’. O que me parece é que a semente da transgeneridade estava nele. Se não estivesse, ele não iria, lá no final da sua vida, colocar peito e bunda”, afirma a jornalista Patricia Hargreaves, autora do livro “O Médico que Virou Monstro” (editora Máquina de Livros), lançado no início de novembro. A obra servirá como base para uma série produzida pela Boutique Filmes, a mesma responsável pelo documentário “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime”, da Netflix.

No livro, a autora reconta a história de Farah desde a vinda dos avós paternos dele, sírios, ao Brasil, em 1925; fala de sua jornada incessante de estudos e de episódios de excentricidade que o acompanharam desde a infância. Além disso, como não poderia deixar de ser, aborda as várias questões ligadas à violência de gênero relacionadas ao caso. Além da morte de Maria do Carmo, Farah havia sido denunciado por pacientes por assediá-las após dopá-las.

A jornalista Patricia Hargreaves, autora do livro “O Médico que Virou Monstro”

Imagem: Sergio Zalis/Divulgação

“Na semana que se seguiu ao crime, houve uma romaria de mulheres à delegacia para as prestar queixa de assédio sexual. Foram quatro processos que correram em segredo de Justiça. Alguns não foram adiante porque as mulheres desistiram, em um ele virou réu, mas o crime prescreveu”, conta Hargreaves. “Muitas delas se questionavam se aquilo havia mesmo acontecido, elas tinham poucas lembranças e algumas sensações físicas, de sentir ardência na vagina. Mas, em termos factuais, isso não foi comprovado.”

Leia entrevista com a autora da obra a seguir.

UNIVERSA – Até hoje paira a dúvida sobre o envolvimento de Farah e Maria do Carmo. Eles tiveram, de fato, um caso? E isso teve alguma ligação com a morte dela?
Patricia Hargreaves – Farah, em seus depoimentos, sustentava que eles tiveram um caso. Eu, até o último momento, questionei isso. Ela não comentava com ninguém sobre esse caso com ele. Mas descobri um depoimento dela na delegacia, em 2000, depois que ele registrou uma queixa de que ela teria ameaçado o médico de morte. Maria do Carmo assina esse papel, então isso é inegável [no depoimento, ela afirma que “ambos passaram a manter um relacionamento amoroso, o que perdurou por cerca de um ano”]. Só escrevi a expressão ‘amante’ depois de ver esse depoimento. Até então, era só a versão dele.

Maria do Carmo realmente ligava incessantemente para ele. Em um mês, foram 5.800 chamadas. Eram intervalos de segundos e não era só para o celular dele. Ligava na clínica, na casa dos pais dele, de todos os parentes dele. Segundo os parentes dela, ela teria ficado com uma cicatriz muito feia depois de uma operação para tirar um cisto do abdômen, isso a abalou psicologicamente e provocou toda essa obsessão. Mas o Farah, em seu depoimento, diz que ela não aceitava o fim da relação, que tentou matá-lo com uma faca, instrumento que nunca foi encontrado, e por isso ele agiu em legítima defesa.

Nos depoimentos que você reproduz no livro, Farah afirma que a vítima “se oferecia” para ele. Houve um ataque moral a ela após sua morte?
Sim. O Farah foi muito desrespeitoso com ela nesse sentido. No primeiro julgamento, e mesmo em outros, ele fala que o que deflagrou o relacionamento deles foi que ela se ofereceu a ele. Porque usava calcinha fio dental, por causa do jeito como ela se abaixava nas consultas, de como arriava a calça para os procedimentos. O que isso tem a ver? Ele a esquartejou. E as manchetes na época falavam muito no fato de ela ser ‘amante’. Isso tem uma mensagem subliminar horrorosa: seria visto como um crime passional. Mas a relação era de médico e paciente, ela chegou nele por questões profissionais [os dois se conheceram quando Maria do Carmo o procurou para tirar um cisto]. Quando foi morta, ele havia dito para ela ir ao consultório fazer uma lipoaspiração.

Livro "O Médico que Virou Monstro", sobre Farah Jorge Farah - Divulgação - Divulgação

Obra foi lançada no início de novembro pela editora Máquina de Livros

Imagem: Divulgação

Quando ele cometeu o crime, não existia a Lei do Feminicídio, de 2015, e nem se discutia violência contra a mulher como se discute hoje. Houve falta de sensibilidade, em relação a machismo e violência de gênero, no curso do processo?
O último julgamento foi em 2014, um ano antes da Lei do Feminicídio entrar em vigor, quando ele foi condenado a 16 anos de prisão. Se fosse um ano depois, acho que ele já teria uma pena maior, outras questões legais teriam sido abordadas. Acho que teria sido muito diferente. Em relação ao momento atual, acredito que o fato de ela ter sido amante dele não seria o ponto chave da história, como foi na época, mas sim o feminicídio em si.

E em relação às denúncias de abuso sexual, acredita que foi dada a devida importância aos relatos?
Na época, os relatos de assédio sexual ganharam espaço na mídia e tinha bastante material. Mas a morosidade da Justiça faz com que qualquer tipo de coisa acabe se esgarçando. Houve uma romaria à delegacia para registrar queixas na semana que se seguiu ao crime. Foram quatro processos correndo em segredo de Justiça. Alguns não foram adiante, e as mulheres desistiram, abandonaram. Muitas delas se questionavam se aquilo havia acontecido, elas tinham poucas lembranças, pois diziam ter sido dopadas, e algumas sensações físicas, de sentir ardência na vagina após um procedimento. Mas em termos factuais, isso não foi comprovado.

Havia uma queixa que o denunciava por abuso e por má prática, por causa de uma cirurgia em que a paciente não ficou satisfeita. Nesse caso ele chegou a virar réu, mas o crime prescreveu. Havia muitas queixas contra ele no Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado São Paulo) por causa de resultados insatisfatórios nas cirurgias. Tinha gente que dizia que ele deixou gaze no corpo, um seio que ficou menor do que o outro. Isso levou ao fechamento temporário da clínica.

O livro traz relatos bastante elogiosos ao médico, que ajudava pacientes de baixa renda trabalhando sem remuneração ou facilitando ao máximo os pagamentos. Mas ele também matou e esquartejou uma mulher. O lado bom era uma encenação para esconder o sombrio?
Não era encenação. E acho isso fascinante nessa história toda. Ele era uma pessoa como o seu vizinho. Um ser humano comum, médico, de uma família de imigrantes, como 80% da população de São Paulo. Era um cara com personalidade excêntrica, desde criança, assistia às aulas descalço, com uma inteligência muito acima da média e que foi perdendo a sanidade mental com o passar do tempo. O assassino não tem um luminoso na testa.

Ele fez a carreira dele facilitando as cirurgias. Atendia vários planos de saúde, mesmo pequenos, e ainda tinha esse método financeiro de facilitar o pagamento, fazia parcelado. Muitas mulheres eram de classes sociais mais humildes, costureira, auxiliar de limpeza. Farah fez a clientela dele assim e, efetivamente, ele era um médico respeitado. Há mulheres que são gratas a ele até hoje. Óbvio que essa pessoa, por ter feito o que fez, é execrável.

Para o livro, eu queria entender qual foi a virada dele. Quando virou a chave que o fez deixar de ser médico e virar louco. Não foi coisa de um dia para o outro, foi acontecendo.

A que conclusão se chegou sobre o estado mental de Farah?
No laudo oficial, feito a pedido do juiz do caso, ele foi considerado imputável, ou seja, tinha consciência dos seus atos e poderia responder pelo que fez. Farah afirmava o tempo todo que teve um apagão, que não se lembrava do que tinha acontecido. Um outro laudo foi feito a pedido da defesa pelo psiquiatra forense Guido Palomba, um perito que, na época, tinha mais de 30 anos de experiência. Ele fala que Farah teve um ‘estado crepuscular’, que poderia de fato causar amnésia. Também cita os delírios persecutórios que o médico de fato tinha.

Farah vedava as janelas da casa com receio de estar sendo vigiado. Jogava seu lixo fora na casa de outras pessoas, para que ninguém encontrasse algo sobre ele. Andava de carro abaixado. Isso ele já apresentava, e toda essa questão piorou quando ele teve a clínica fechada, após as denúncias de ex-pacientes por erro médico. Esse foi um dos gatilhos mais fortes. Ele tinha certeza de que Maria do Carmo estava entre as denunciantes, mas ela não estava.

Farah foi encontrado morto com roupas femininas e implantes de silicone nos seios e nas nádegas. O que isso significa?
A semente da transgeneridade devia estar dentro dele. Tanto que era um esteta, queria mudar o corpo das pessoas já que não podia mudar o próprio. Queria poder mudar a natureza. Se não houvesse essa semente, ele não teria, lá no fim da vida, colocado peito e bunda, não teria saído usando sutiã. Até então, não acho que ele se permitia pensar nisso, nem na possibilidade de não ser um varão. Era um homem que se sentia 100% inadequado.

Acredito que muito do pânico que o levou a ter dado fim à própria vida é que ele tinha medo do que poderia acontecer com ele se voltasse à prisão com as próteses de silicone no corpo.

Na última parte do livro, você diz que buscou saber “como anda a vida de quem sofreu com a brutalidade do assassinato”. Quem são as pessoas e como elas estão?
A família dela nunca se recompôs. O pai teve uma depressão séria, nunca mais saiu da cama e morreu alguns anos depois do crime, de causas naturais. A mãe dela e os irmãos ainda brigam pela indenização, que seria paga por Farah ou sua família. A verdade é que a vida deles nunca mais foi normal. O viúvo da Maria do Carmo também teve episódios de depressão, precisou de ajuda psicológica. Na entrevista que fiz com ele, falou que mesmo tendo casado duas vezes depois, não passa um dia sem pensar nela. Por parte do Farah, o pai e a mãe morreram quando ele estava preso, nos primeiros anos depois do que aconteceu. Depois que lancei o livro, um amigo da família Farah fez um comentário que acho que explica bem o que houve: não foram só ele e ela que morreram nessa história, todo mundo morreu um pouco.

Mesmo sendo um caso conhecido e bastante abordado pela imprensa, descobriu algo que te surpreendeu?
Sim. Primeiro foi ter descoberto o depoimento assinado pela Maria do Carmo em que ela falava que os dois tiveram um caso, pois até então eu duvidava. Também houve algumas coincidências que me impressionaram, e a principal delas foi a relação com o ‘crime da mala’, um episódio que aconteceu em 1908, em São Paulo. Um libanês matou e esquartejou um comerciante sírio chamado Elias Farhat por ter um caso com a mulher dele. Ele tentou embarcar em um navio com o corpo picado em uma mala, mas foi pego. A mulher da vítima foi considerada cúmplice da história, e o advogado dela se chamava Alfredo Pujol, nome da rua da clínica onde Farah matou Maria do Carmo.

Por último, o caso do Farah foi o primeiro crime desvendado com o uso de uma substância chamada luminol. O luminol é usado para identificar vestígios de sangue que podem ficar em um ambiente mesmo depois de limpo, que foi o que aconteceu na clínica, tornando as manchas fosforescentes. O investigador, que foi o mesmo do caso Chico Picadinho, diz que lembra até hoje da cena, após a aplicação do luminol: havia sangue até no teto.



Fonte