Cancro da mama, um testemunho e uma perspetiva. “O corpo nunca volta a ser o mesmo” – Atual

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O que acontece ao corpo de uma mulher que passa por uma experiência dolorosa como a exposição à quimioterapia, às operações, às mastectomias? Apesar de cada história ser uma história, e cada cancro ser um cancro, há superações que todas as mulheres passam. Um tema que, pelo estigma da doença, pela importância da saúde mental e de quebrar tabus, é discutido por um médico e uma sobrevivente, no mês em que se assinalam o Dia Mundial da Saúde da Mama e o Dia Nacional de Luta Contra o Cancro.

Marina Sousa, 39 anos, descobriu que tinha cancro da mama prestes a completar 34 anos, no verão de 2016. Superou a doença, permitiu-se interiorizar, mas o “depois” também fez parte da sua luta. “Ao nível da recuperação física, a condicionante em particular que tornou tudo mais complicado partiu do facto de eu ter realizado esvaziamento axilar. Nem toda a gente passa por isso” começa por contar à Máxima, sobre a operação destinada a tirar todos os gânglios da axila. “Foi necessário porque o meu cancro era do tipo triplo negativo – que é um cancro que não tem receptores hormonais e tem características um pouco diferentes pela questão de evoluir mais rapidamente, e com mais probabilidade de metáteses (o que aumenta a probabilidade de passar para a axila). Por isso, e por ter o gânglio sentinela positivo, tive que fazer o esvaziamento axilar, que é considerado uma trombose linfática no pós-operatório”, explica.


Assim que foi possível, fez dois meses de fisioterapia, ainda antes de iniciar a radioterapia (isto porque fez primeiro quimioterapia, depois a operação e em seguida a radioterapia]. “Com o retrocesso muscular que a radioterapia provocou, voltei a fazer fisioterapia durante um mês e meio. O corpo não volta a ser o mesmo, pela questão do esforço físico, já que o braço deixa de ter gânglios linfáticos. Não posso retirar sangue, e também não convém fazer esforços desmedidos” conta. “Há pessoas que fazem o resto da vida fisioterapia, por uma questão de prevenção. No meu caso, tive que usar uma manga de retenção, e como o braço inchou, com o calor, precisei de usar uma manga de tratamento até que consegui controlar. Sei que nos casos em que a pessoa é diagnosticada com um cancro de receptores hormonais tem uma terapêutica acrescida. No meu caso, sempre fiz auto-exame e fiz acompanhamento semestral até cumprir os cinco anos. Depois, passa a ser anual. A prevenção é o ponto mais importante”, assegura.

Além destes efeitos, Marina ainda sentiu outros na pele. “Pela questão da quimioterapia, o corpo entra em menopausa precoce, e isso é um dos efeitos que acontece a todas as mulheres. Numa pessoa mais jovem, como era o meu caso, tive um período de um ano em que o corpo deixou de responder à parte hormonal. Aos poucos, o corpo vai retomando as características habituais. Mas nunca volta a ser o mesmo. Ainda que tenha uma cicatriz realmente grande, não precisei de fazer mastectomia. Sente-se a diferença ao nível da sensibilidade: ao toque, é sempre uma sensação diferente.”

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Marina Sousa, 39 anos.

Marina Sousa, 39 anos.


João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas e um dos autores do recém lançado livro Reconstrução Mamária, editado pela Oficina do Livro, e escrito em conjunto com o médico Rui Bastos e a enfermeira Maria do Céu Oliveira Martins, é um dos médicos a falar abertamente sobre o assunto do pós-cancro.

“A maioria das doentes necessitam de algum tipo de tratamento cirúrgico e têm de ser informadas e compreender que o tratamento do cancro da mama é um processo que pode ser demorado, tem dificuldades mas que, na maioria das situações, pode ser ultrapassado com sucesso” começa por dizer. “Um dos capítulos do livro que designámos por Viver com a mama reconstruída é justamente sobre os cuidados de pós-operatório de curto, médio e longo prazo e que são consideravelmente diferentes conforme a cirurgia que é realizada. Habitualmente, a parte física do pós-operatório é bem tolerada principalmente quando existe um acompanhamento próximo por parte dos cirurgiões e enfermeiros da senologia” esclarece. Quanto à parte mais difícil, “talvez seja a de sentirem que sofreram uma cirurgia que de alguma forma as deformou, e é aqui que a reconstrução mamária tem tanta importância. Apesar da remoção de parte ou totalidade da mama, é possível, na maioria das situações, reparar com qualidade elevada o defeito resultante dessa cirurgia oncológica.”

João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas

João Filipe Tavares, médico especialista em Cirurgia Plástica e Reconstrutiva na Clínica de Santo António do Hospital Lusíadas

Foto: DR

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O médico reconhece que a reconstrução mamária não só é importante na intimidade da mulher como também em muitas questões funcionais, “tais como a postura em relação com a coluna vertebral, e a autonomia / liberdade para realizar actividades tão simples como usar determinada roupa ou poder ir à praia com um fato de banho” exemplifica. “A reconstrução mamária não é uma cirurgia estética à mama. É uma cirurgia reconstrutiva, com várias técnicas distintas, que são aplicadas conforme a cirurgia oncológica realizada, os tratamentos complementares propostos e as próprias condicionantes de cada mulher”. João Tavares acredita que uma das maiores condicionantes à reconstrução mamária “é a radioterapia, mas este tratamento não deve deixar de ser realizado quando necessário. Por regra, estabelecemos que a reconstrução mamária nunca deve interferir nos tratamentos oncológicos (médicos ou cirúrgicos) devendo a mesma adaptar-se às circunstâncias existentes.”

Todas as mulheres têm acesso à reconstrução mamária no sistema de saúde público? Como é feita essa triagem? São algumas das perguntas que as mulheres que passam pela doença têm. “Infelizmente não. Existem dois níveis de problemas, aquele em que hospitais não oferecem qualquer tipo de reconstrução mamária e um outro mais subtil mas também complexo que são os hospitais que oferecem reconstrução mamária com um número limitado de técnicas e que, em vez de ser proposta a técnica mais apropriada para a doente, é proposta a técnica existente naquele centro”, avisa o médico, que sugere “serem criados centros de referenciação especializados que tenham capacidade de resposta e que ofereçam cuidados verdadeiramente diferenciados. No tratamento do cancro da mama devem ser sempre envolvidos, desde o primeiro momento, o cirurgião senologista, o oncologista, o cirurgião plástico entre outros profissionais.”

O médico acrescenta ainda que um dos problemas coloca-se “ao nível dos hospitais em que o tratamento é realizado de forma esporádica e que não é dada a possibilidade de uma consulta de cirurgia plástica reconstrutiva” e que no “estado atual de desenvolvimento do tratamento do cancro da mama são necessárias equipas especializadas. Por exemplo, no centro onde trabalhamos existe uma equipa de cirurgiões e uma consulta específica e exclusiva para doentes com cancro de mama”, que é a Clínica de Santo António, na Amadora.

Por fim, e sobre se acredita que a doença continua a ser estigmatizada, João Tavares acredita que é preciso criar awareness e esclarecimento.O cancro da mama é uma doença que interfere com a intimidade da mulher. Em particular, a cirurgia oncológica influência muitas vezes a forma como [a mulher] se vê e consequentemente mexe com a sua autoestima. É necessário manter a noção da importância da reconstrução mamária no tratamento do cancro da mama e progressivamente caminhar para a referenciação para centros especializados de todas as doentes.”

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Sobre isso, acredita que este novo livro “teve uma intenção um pouco mais prática de explicar às doentes e às pessoas que as acompanham de forma mais próxima, as diferentes etapas e técnicas de reconstrução mamária, apresentar fotografias dos resultados expectáveis em cada uma delas, os cuidados necessários de pós-operatório, a experiência vivida por outras doentes que já passaram por essa vivência e alguma informação sobre a ajudas institucionais existentes. O livro também serve de referência às técnicas mais atuais de reconstrução mamária para que possa existir uma maior exigência de qualidade das doentes e dos profissionais relativamente à reconstrução mamária.”



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