Dedos binicos devolvem mobilidade

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Leandro Torres/AAN

Jos Andr Carvalho, diretor do IPO, observa Jos Reinaldo Guelfe voltar a segurar uma caneta


A unidade campineira do Instituto de Prótese e Órtese (IPO) finalizou ontem a adequação de uma prótese com tecnologia revolucionária e até então inédita na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Nove anos depois de perder parte da mão direita em um acidente de trânsito, José Reinaldo Guelfe conseguiu a reconstrução com dedos biônicos. Diretor do IPO, José André Carvalho destacou que menos de 10 pacientes dispõem desses componentes artificias na América Latina. A tecnologia é desenvolvida na Islândia, com matéria-prima da Escócia e custa pelo menos RS 250 mil. O investimento, segundo o médico, é irrelevante. “O valor de um membro é imensurável”, contextualiza.

Carvalho explicou que o paciente teve uma amputação parcial da mão. “Ele perdeu parte da palma. Só o polegar foi preservado e com um pouco de limitação de movimento”, disse. Por ser destro, Guelfe foi privado da independência funcional do braço.

Antes da prótese, “ele não conseguia segurar uma caneta, garfo, copo ou escovar os dentes. Precisou aprender a fazer muitas coisas com a mão esquerda”, comentou. O médico informou ainda que há muito tempo desenvolveram mãos eletrônicas para aqueles em que o corte ocorreu do punho para cima. No caso de Guelfe, a opção seria uma luva de revestimento, meramente estética, algo que o paciente não queria. “Ele queria recuperar a função bimanual”, frisou. Ao receber o paciente, Carvalho analisou sua necessidade e desejo para prescrever a fabricação de um modelo personalizado. “Não vendemos próteses, reabilitamos amputados”, esclareceu.

A prótese funciona por meio de sinais elétricos emitidos por contrações musculares. Um eletrodo posto sobre a pele capta e amplia essa atividade e encaminha a uma placa processadora, que interpreta os dados gerando a movimentação dos dedos.

“Muitos, entre eles médicos, desconhecem esse recurso tecnológico”, pontua Carvalho. Entre segunda-feira e ontem, Guelfe foi submetido a diversos exercícios e práticas. Inicialmente, um molde de gesso foi feito para dimensionar o membro. Em seguida, informa o médico, foram identificados os pontos motores.

Por fim, o encaixe com silicone foi confeccionado para a adequação da próstese. Ontem, o paciente realizou treinamentos para criar habilidades com o recurso. Guelfe assegura que ter a mão de volta é um sonho realizado. “Graças a Deus não tive depressão”, enfatiza. “Eu fazia de tudo. De repente, virei dependente das outras pessoas”, completou.


Sobrevivente

José Reinaldo Guelfe se emocionou ao constatar que recuperou os movimentos bimanuais. Atualmente com 59 anos e aposentado por invalidez, o ex-motorista profissional relembrou, porém, que o simples fato de estar vivo é um milagre.

Há mais de 30 anos morando no Paraná, o paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, cidade a 330 km de Campinas, sofreu um grave acidente de trânsito em 2010. “Eu vim para São Paulo numa quarta. No retorno, na sexta-feira seguinte, o motorista do ônibus em que eu viajava dormiu e bateu em um caminhão na Rodovia Presidente Castelo Branco (SP-280, também denominada BR-374 e conhecida como Rodovia do Oeste)”, recordou.

Guelfe contou que perdeu os quatro dedos e parte da mão direita na colisão. “A perna direita tentaram salvar, mas não deu”, completou — a amputação aconteceu da coxa para baixo. Os 61 dias posteriores ao acidente, Guelfe passou no hospital. Por 20 deles, necessitou fazer hemodiálise, para realizar parte do trabalho que o rim doente não conseguia.

“Passei por 18 cirurgias, subdividas entre as pernas e as mãos, além de quatro nos rins”, mencionou. Em 2019, o aposentado recebeu a indenização da empresa de transportes responsável pelo ônibus no qual sofreu o acidente. O montante permitiu a aquisição da prótese.

Ex-goleiro da Chapecoense também foi tratado pelo IPO

Diretor do Instituto de Prótese e Órtese (IPO), José André Carvalho relembra que, em 2017, tratou do então goleiro da Chapecoense, Jackson Follmann. “Ele chegou aqui abatido”, recordou. “Hoje, ele já participa de amistosos e fiquei sabendo que vai ser pai”, comemorou. Em 2016, na época com 24 anos, o ex-atleta profissional foi um dos seis sobreviventes de uma tragédia que resultou na morte de 71 pessoas. A aeronave da delegação do clube catarinense, com jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas, caiu na Colômbia. A investigação confirmou que o combustível do avião era insuficiente para o voo entre Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e Medellín. O time brasileiro disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. Há dois anos, Follmann veio a Campinas e implantou uma prótese na perna direita, parcialmente amputada no acidente. O componente devolveu a mobilidade no pé, como se ele tivesse um tornozelo mecânico.




Escrito por:

Daniel de Camargo




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