“Enfrentei um câncer agressivo e uma separação ao mesmo tempo. E superei os dois” – Revista Marie Claire

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O câncer de Janaína desapareceu completamente depois da segunda quimio (Foto: Acervo pessoal)

“Nasci e cresci em São Paulo, em uma família cheia de mulheres. Em casa, somos três meninas – Flávia é quatro anos mais velha que eu e minha irmã gêmea, Jaqueline. Já tinha passado por um namoro longo quando conheci Lourenço*, cardiologista de um amigo. Assim que botei os olhos naquele homem alto, moreno, com sorriso iluminado, me apaixonei. Em menos de uma semana, estávamos juntos e, seis meses depois, nos casamos. Lourenço era perfeito. Educado, trabalhador, muito, muito gato e me tratava com o maior carinho.
A primeira parte da lua-de-mel durou um ano, tempo que levei para engravidar. Quando soubemos que teríamos um filho, Lourenço sugeriu que eu saísse do banco onde trabalhava desde os 17 anos e tinha uma carreira ascendente. Com seu emprego no hospital e o consultório em uma clínica particular, podia arcar com nossas despesas enquanto eu cuidava de Lucas. Envolvida com a maternidade, topei. Mas só fiquei em casa em tempo integral durante um breve período. Quando nosso bebê, hoje com 5, fez 1 ano, abri uma loja de roupas que misturava peças garimpadas com outras desenhadas por mim.

Meu filho estava com 2 anos quando a irmã de Lourenço herdou a clínica médica de seu sogro e o convidou para trabalhar lá. A proposta era irrecusável: 50 mil reais mensais que ela cobriria caso a clientela fosse escassa. O único problema é que teríamos que nos mudar para a cidade deles, Londrina, no Paraná. Morar longe dos meus pais e perto da família dele, que nunca havia se aproximado de mim e com quem meu marido mantinha uma relação distante, e largar a carreira não era nada animador. Mas, mesmo depois de a mãe dele ligar para a minha, deixando claro que eu não seria bem-vinda, ele me convenceu com o argumento de que Lucas cresceria em uma cidade mais tranquila. Deixei minha loja com minha irmã Jaqueline e fui.

A recepção familiar na nova cidade foi diferente da esperada. Meus sogros não ligavam para o neto, minha cunhada tampouco para o sobrinho. Como morávamos perto, muitas vezes cruzava com eles na rua e era tratada com indiferença. Como se não bastasse, meu marido estava sempre estressado e não me tratava mais com o mesmo carinho. Angustiada com a vida doméstica, sem amigos nem familiares, que Lourenço acreditava compensar com dois cartões de crédito em meu nome, decidi fazer um curso de micropigmentação de sobrancelha. Minha ideia era fazer todos os módulos até chegar ao de reconstrução da aréola mamária. Precisava de um propósito e devolver a autoestima a sobreviventes de câncer de mama, mesmo sem conhecer ninguém nessa situação, preencheu esse espaço em minha vida. Lourenço achava uma grande bobagem. ‘Você vai ganhar em um mês o que eu ganho em um dia.’ Mas Jaqueline, que a essa altura havia fechado a loja, conseguiu pagar meus estudos em parcelas, e, contra a vontade dele, comecei a estudar.

Animada em reorganizar minha vida, aproveitei a virada de ano para fazer um check-up ginecológico. Para adiantar o processo, pedi que Lourenço preenchesse as guias para os exames. Assim, chegaria ao médico com os resultados em mãos e ainda economizaria a primeira consulta. Durante três semanas, todos os dias cobrava meu marido que sempre esquecia o receituário no consultório. Até que cansei de esperar e marquei o ginecologista.
Ao médico, além da ultrassonografia transvaginal, solicitei uma de mama, que nunca havia feito. O ginecologista achou besteira. Havia acabado de fazer 30 anos, não possuía casos de câncer na família, só comia orgânicos e vivia na academia. Também não apresentava nenhum dos sintomas, como secreção ou inchaço. E ele ainda havia feito o exame de toque, sem detectar absolutamente nada. Mesmo assim insisti. Minha prótese de silicone já tinha dez anos, achei que não custava olhar.

Uma semana depois, lá estava eu no laboratório quando, durante o ultrassom de mama, vi a radiologista arregalar os olhos. ‘Algum problema?’. Ela disse que havia achado um nódulo e eu, já aos prantos, pedi que ampliasse a imagem. O negócio era tão esquisito e disforme que na hora tive certeza: é câncer. Saí da sala feito um foguete, ignorando minha avó, que havia ido me visitar em Londrina e me aguardava no hall de espera. Lá fora, liguei para Lourenço. Mal conseguia falar de tão nervosa. Contei sobre o exame, mas ele conseguiu me acalmar. ‘Rasgo meu CRM se você tiver alguma coisa’, disse. Diante daquilo, me tranquilizei.
Consegui marcar a biópsia para o dia seguinte. Saí de lá ainda mais angustiada. Era uma quinta-feira e o resultado estava previsto para segunda. Minha ansiedade era absurda. No sábado de manhã, ainda na cama, abri o laptop e vivi o pior momento de minha existência: era câncer mesmo. E já em estado avançado.

Dessa vez, não chorei. Estava chocada demais para isso. Chamei por Lourenço, que deu um pulo. ‘Isso está errado’, disse. E começou a ligar para a família e os colegas de profissão na esperança de algum deles dizer que aquilo era um engano. Mas o conselho que ouviu de todos foi o contrário do esperado: ‘Vá tratá-la. Urgente’.

Aos poucos, os familiares dele foram chegando em casa. Meu marido resolveu tudo. Fez minha mala, ligou para os meus pais e determinou que iríamos a São Paulo imediatamente para me tratar com um médico que havia curado um conhecido dele em estado grave. Eram nove da manhã quando abri o exame. Ao meio-dia já estava no carro com Lucas, Lourenço, meu sogro e minha avó a caminho da casa dos meus pais.

Minha família me recebeu com serenidade. Nos abraçamos, e logo fui dormir, ou pelo menos tentar. Às 4h, já tinha minha primeira consulta com o doutor Maluf, o tal oncologista. Muito objetivo, explicou que o primeiro passo era descobrir o tamanho do monstro e me prescreveu os exames. No dia seguinte cedo, fiz uma punção da outra mama, que também tinha um pequeno nódulo, e várias da axila, para saber se havia células cancerígenas. Depois, o momento mais desesperador da minha vida: o PET Scan, análise que verifica a presença de metástase – hipótese provável, devido ao tamanho do tumor, mas que não foi confirmada.
Cada vez que chegávamos do hospital, meu marido passava horas andando dentro de casa. Depois, se trancava no quarto com meu sogro. Até que decidi perguntar o que tanto conversavam. ‘Meu pai calcula que você vai me custar 500 mil reais’, disse. Era a primeira vez que ele falava assim. O mesmo homem que, menos de uma semana antes, me jurava amor eterno. Em uma inversão de papéis, comecei a consolá-lo. ‘Fica tranquilo, amor. Vai dar tudo certo’, dizia sem conseguir acalmá-lo.

Depois do PET Scan, minha cunhada me ligou por vídeo. Junto a sua mãe, foi categórica: ‘Você não pode voltar. Vai ficar careca, vomitando pela casa, e a gente trabalha, não pode cuidar de você.’ Elas disseram ainda que eu não estava dando a devida dimensão à minha doença e desligaram. Em choque, fui narrar a conversa a Lourenço, que não deu bola. ‘É o jeito delas, não liga’, disse.

Mas a novela não estava nem começando. Depois de uma visita ao hospital com meu pai e meu marido, para tentar negociar descontos, meu sogro disse que ia embora. Só depois fiquei sabendo que ele havia destratado meu pai, que não tinha condições financeiras de bancar meu tratamento. Chocada, liguei para o convênio que tinha em Londrina. Só que não fui atendida por um homem e sim por um anjo, que imediatamente fez a transferência e resolveu aquele impasse financeiro que estava acabando com meu casamento e minando meu restinho de saúde.

Mais animada, fui à consulta cheia de esperança. Mas a expressão de Lourenço foi de morte quando o médico disse que meu tumor era do pior tipo, que precisava começar a quimioterapia imediatamente e, depois, fazer uma mastectomia. Três dias depois, meu marido avisou: ‘Estou voltando para Londrina’. Pedi que ficasse para me acompanhar pelo menos na primeira quimio. Mas ele negou: ‘Preciso trabalhar’. Na despedida, abracei ele e pedi calma. Diante de sua frieza, falei: ‘Câncer não pega’. E, sem dizer nada, ele partiu.
A partir daí, tudo mudou. Lourenço parou de me ligar e não respondia mais às minhas mensagens. Mas, por incrível que pareça, a vida continuava sorrindo para mim e, por pura empatia, meu médico avisou que não cobraria pelo meu tratamento.

Um dia fui à farmácia e descobri que meus cartões estavam cancelados. Liguei para casa num misto de revolta e perplexidade. ‘Você não tomou uma decisão? Eu também tomei’, disse ele do outro lado da linha. ‘Vai se divorciar porque estou doente?’, perguntei.
Depois de quase dois meses sem dinheiro, vivendo com a ajuda do meu cunhado e da pensão da minha avó, procurei um advogado. Aí descobri que ele havia pedido o divórcio. Sem me avisar, mandou para uma rodoviária em São Paulo umas sete caixas de papelão com roupas e alguns pertences do nosso filho. Com o intuito de não me mandar dinheiro, largou os empregos regulares e passou a receber pelo trabalho de forma não oficial. Assim, mandava R$ 500 mensais, que não pagava nem metade do colégio do menino. E, pior de tudo, sempre que visitava Lucas, com intervalos que podiam variar de 15 dias a três meses, levava-o aos lugares mais bacanas de São Paulo, comprava roupas, brinquedos e dizia a ele que só teria acesso a esses itens em Londrina.

Acontece que, em meio a todo esse caos, sentia minha família cada vez mais unida. No dia em que cortei o cabelo, minhas irmãs também cortaram. Eduardo, meu ex-namorado de 11 anos atrás, reapareceu e me dava força para tudo. Abri minha conta do Instagram, que até então era fechada, e comecei a compartilhar meu dia a dia. A quantidade de mensagens que passei a receber me encheu de amor e coragem. Passei a meditar e, cada vez que via o líquido vermelho da quimio entrando no meu corpo, mentalizava que aquilo levaria embora tudo de mal. Ia para o hospital cantando, sempre com um de meus pais ao lado. Minha vontade de viver era tanta que meu nódulo, que no primeiro exame tinha 1,9 mm de dimensão e 3,5 mm antes da primeira quimio, diminuiu para 3 mm com uma sessão e desapareceu totalmente depois da segunda.

Em setembro, terminei o tratamento e fiz a mastectomia. Na mesma operação, consegui botar a prótese. Ainda no hospital, Eduardo me perguntou: ‘Quer namorar comigo?’. A proposta me pegou de surpresa. Não estava preparada. Estava mal, inchada, sentido um vazio enorme. Mas pensei: ‘Que cara incrível, e que sorte a minha’. Enquanto um homem a quem eu havia me doado completamente me virava as costas, ele estava lá. Cheio de amor e sem pressa. No dia do meu aniversário, quase um mês depois, ele repetiu o pedido. Dessa vez, disse que, sim, ficaria com ele. Com ele, meu filho, minha família, meus amigos, meus seguidores. E as pessoas maravilhosas que tenho conhecido ao longo da minha jornada.”

*Nome fictício

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