‘Era aflita, hoje vejo beleza no simples’

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O mundo não é cor-de-rosa. Nem sempre, tudo são flores. E há períodos ainda mais complicados, quando a vida se mostra cinza e espinhosa. Susana Naspolini passou por pelo menos quatro momentos assim, intensos e tortuosos. O primeiro, aos 18 anos, quando foi diagnosticada com um linfoma. Vinte anos depois, mais um baque, duplo: descobriu um câncer de mama e um na tireoide, praticamente ao mesmo tempo. Recentemente, em 2016, o choque: precisaria lutar novamente contra outro câncer de mama.

Susana Naspolini sobre o Outubro Rosa: ‘Quis ficar viva para continuar ao lado da minha filha’

— Em todas as vezes, minha primeira reação foi de revolta. A última foi a mais drástica. Pensei: “Agora vou morrer. Não tem jeito, está acabado”. Eu me desesperei muito, muito, muito! Mas só tinha duas opções: ou cavar um buraco ainda mais profundo, sem saída, ou pedir forças a Deus para sair dessa e focar nisso — reflete, aos 46 anos.

“É um privilégio e uma responsabilidade poder ser ouvida e ouvir os outros”

Susana Naspolini

Apesar dos pesares, Susana escolheu ser feliz. Inclusive, assim intitulou seu primeiro livro, lançado em junho deste ano, em que compartilha os altos e baixos de sua existência com os milhares de admiradores conquistados com o seu carisma, à frente do quadro “RJ móvel”, do “RJTV”. Especialmente aqueles que estão passando pelas mesmas adversidades na saúde. Neste Outubro Rosa, a jornalista aceitou, honrada, nosso convite para estrelar uma capa com um ensaio de moda todo nesta cor, reforçando a importância de se falar sobre o câncer de mama, na intenção de preveni-lo ou superá-lo.

— É um privilégio e uma responsabilidade poder ser ouvida e ouvir os outros. Sempre que possível, participo de encontros e debates sobre o câncer. Falar sobre isso é uma das grandes contribuições que posso dar — afirma.

A capa do primeiro livro da jornalista
A capa do primeiro livro da jornalista Foto: Reprodução

Por todo o seu histórico de dramas pessoais — incluindo a morte precoce do marido, o apresentador e locutor esportivo Maurício Torres, aos 43 anos, por problemas no coração e no pulmão, em 2014 —, somado as suas vitórias e seu talento no jornalismo comunitário, ao ajudar a resolver problemas cotidianos da população do Rio, Susana se tornou uma espécie de heroína real. Gente como a gente que prova ser possível, sim, superar obstáculos aparentemente intransponíveis.

“Cada um que for contar a sua história pessoal vai servir de exemplo para alguém”

Susana Naspolini

— Sabe o que eu acho de verdade? Cada um que for contar a sua história pessoal vai servir de exemplo para alguém. Tenho essa convicção baseada no meu trabalho. Não tem um dia sequer em que eu não converse com alguém incrível. São pessoas pobres, que não têm nem água direito em casa, mas me recebem sempre com um café quentinho, um bolo, um carinho. Todos nós somos carentes. E todo mundo tem alguma coisa a ensinar e muito a aprender. Talvez as pessoas se inspirem na minha história porque eu fale delas mesmas — opina ela, que recebeu da Câmara Municipal do Rio, no dia 8 deste mês, a Medalha ao Mérito Pedro Ernesto, principal homenagem que a cidade presta a quem mais se destaca na sociedade.

Ao expor intimidades no livro “Eu escolhi ser feliz”, Susana confessa que temeu a reação dos leitores. E até os preconceitos que poderiam vir à tona:

— Não sabia se me olhariam com cara boa ou ruim pelo que contei ali, mas precisava compartilhar. O fato de eu ter tido câncer quatro vezes pode, de repente, fazer de mim alguém que não queiram por perto. Por preconceito mesmo, não por maldade. Quando fiquei doente, as pessoas comentavam: “Ai, meu Deus, tu não mereces…”, “Nem quero falar o nome dessa doença porque atrai”.

Susana durante reportagem do
Susana durante reportagem do “RJ Móvel”: ela faz estripulias, como subir em árvore Foto: Márcio Alves

Ela alerta que o pior sentimento que podem demonstrar por alguém que está enfrentando o câncer é a pena:

— Isso fragiliza. Quando te consideram coitadinha, você começa a se vitimizar, e isso vai te debilitando emocionalmente. O legal é ser solidário: “Sei que você está doente, conta comigo!”, “Estou rezando por você”, “O que eu puder fazer pra te ajudar, estou aí”, “A sua dor é a minha dor, vamos juntos”.

“Ficar doente não é sua culpa. Ser forte também é admitir a sua fraqueza e pedir socorro”

Susana Naspolini

Hoje em dia, quando fica sabendo que alguém está com câncer, Susana faz questão de demonstrar seu apoio:

— Eu me cobro isso. Antigamente, se a pessoa não me contava, eu ficava com receio de ligar. Agora, tento me aproximar de algum jeito. Não tem que ficar com medo de ser invasivo. Se não quer ligar, manda mensagem. E não precisa ser todo dia, pode ser de 15 em 15. Isso faz diferença e é tão simples! Quando estava mal, recebi muitas por WhatsApp, Facebook, Instagram… Nem imaginam como me fez bem essa energia.

A repórter também estimula quem está passando pelo problema a desabafar:

— Não tenha vergonha de pedir ajuda! Ficar doente não é sua culpa. Você precisa de colo, carinho, auxílio com coisas básicas, como alguém para ir ao mercado. Ser forte também é admitir a sua fraqueza e pedir socorro. Tanta gente me ajudou, de tantas formas! Só tenho a agradecer!

Susana dedica dez rosas a pessoas que lhe foram importantes nos períodos mais complicados da doença
Susana dedica dez rosas a pessoas que lhe foram importantes nos períodos mais complicados da doença

Susana conta que, no seu caso, a doença não se desenvolveu por questões genéticas:

— Minha médica pediu para eu coletar material genético para análise e chegou a essa conclusão. Que eu saiba, nunca houve um caso assim na minha família. Isso me tranquilizou com relação a Julia (sua única filha, de 13 anos, e melhor amiga). Ela não está salva, mas as chances de desenvolver esse mal são iguais às de qualquer outra mulher. Minha filha não está mais propensa a ter câncer por minha causa, graças a Deus.

Julia, aliás, foi a grande motivação da mãe para a cura:

” Precisei sofrer o risco de perder tudo isso para agradecer todos os dias. Sou mais forte e resiliente”

Susana Naspolini

— Hoje, eu consigo olhar tudo o que passei e ser grata. Não só por estar viva, mas por ter aprendido muito com o que foi ruim. Tenho claras as minhas prioridades. Antes, era mais ansiosa, agoniada, aflita. Eu me cobrava muito, nunca era boa o suficiente. Queria estar sempre produzindo, não me permitia parar, descansar. Agora, abro mão de tudo para estar com Julia (ela fica com os olhos marejados e a voz embargada). Consigo ver beleza nas coisas simples, básicas, que a gente não costuma valorizar. Precisei sofrer o risco de perder tudo isso para agradecer todos os dias. Sou mais forte e resiliente.

O primeiro câncer de mama, em 2011, Susana descobriu por acaso, ao realizar um autoexame. Percebeu um “carocinho estranho” no seio esquerdo e, preocupada, foi ao médico, que lhe solicitou uma mamografia.

— Qual não foi a minha surpresa quando, pelo exame, descobri um nódulo minúsculo na outra mama, a direita. Esse, sim, era o câncer. O da esquerda, não — detalha, enfatizando: — Não dá para ignorar o autoexame. Primeiro, porque o acesso à mamografia é limitado no Brasil; e depois, no intervalo de um ano entre um exame e outro, pode aparecer algum problema. Quanto mais cedo descobrir, melhor.

Susana escreveu um bilhete para mulheres que acabaram de receber o diagnóstico de câncer de mama
Susana escreveu um bilhete para mulheres que acabaram de receber o diagnóstico de câncer de mama Foto: Reprodução

Apesar do desespero inicial, Susana diz que nunca ficou tentando achar um culpado para o que lhe aconteceu:

— Tive câncer porque sou humana, tenho um monte de fragilidades, limitações físicas. Eu não fiz nada de errado para merecer. Nunca passou pela minha cabeça que foi castigo de Deus. E não acredito que raiva e mágoa causem câncer, isso não explicaria o meu caso. Não sou uma pessoa raivosa, rancorosa.

“Não entendo quem não crê na existência de Deus. Ele nos dá forças nos momentos ruins. Deus é amor, não castiga!”

Susana Naspolini

O alto-astral constante e a fé inabalável, esses sim, essa mulher de fibra e sangue italiano herdou da família, originária de Criciúma, em Santa Catarina.

— Eu me inspiro muito nos meus pais (Fulvio, de 81 anos, e Maria Dal Farra, de 74). Já passaram por poucas e boas e estão sempre otimistas, com um sorrisão no rosto. Sou muito católica, também por influência deles. A melhor herança que vão me deixar nessa vida é a espiritualidade. Acreditar no que eu acredito é o que me dá forças para seguir em frente, não tenho a menor dúvida disso. Oro, peço, agradeço. Fui criada assim e não consigo enxergar a vida sem fé. Não entendo quem não crê na existência de Deus. Ele nos dá forças nos momentos ruins. Deus é amor, não castiga! — acredita Susana, que frequentava a quimioterapia na companhia de um terço e das imagens de Santa Rita de Cássia e de um “santinho” de Guido Schäffer (médico e seminarista que morreu praticando surfe na praia do Recreio dos Bandeirantes, em 1º de maio de 2009): — Ele pode se tornar o primeiro santo do Rio. Eu me aproximei da história dele antes de saber que estava doente e me apeguei.

Susana se apegou a sua fé para superar a doença
Susana se apegou a sua fé para superar a doença Foto: Reprodução de Instagram

Do pecado da vaidade, ela garante passar longe. Mas não nega que ter ficado totalmente careca, aos 18, e, anos depois, sem o seio direito, abalou suas estruturas femininas.

— Não dá para minimizar essa questão da perda do cabelo. É claro que ele volta a crescer, mas se ver careca é muito impactante, não é fácil para mulher nenhuma. Eu tinha o cabelo longo, na altura da cintura, e estava no auge da minha juventude. Foi muito assustador, ainda mais numa época em que não se falava sobre o câncer! Dessa última vez, usei a técnica da touca gelada para não perder os fios — detalha, advertindo em seguida: — Isso está longe de ser uma bobagem, só que não é prioridade. Ninguém deve deixar de fazer a quimioterapia porque vai ficar careca nem a mastectomia porque vai ficar sem peito. É uma mutilação, mas também a chance de cura. É claro que é sofrido, mas é pequeno numa escala de prioridades. Quando é a vida da gente que está em jogo, tira o cabelo, tira a mama, tira o que for pra me deixar viva. É preciso encarar!

“Quando é a vida da gente que está em jogo, tira o cabelo, tira a mama, tira o que for pra me deixar viva”

Susana Naspolini

Como se não bastassem todas as adversidades, a catarinense ainda conviveu por cinco anos com uma prótese de silicone invertida no seio direito, por erro do cirurgião plástico:

— Visualmente, era uma diferença enorme do outro seio. Eu só usava blusão, porque marcava. Sentia um incômodo, mas como nunca tinha feito plástica na vida, achava que era assim mesmo. Só descobri quando troquei de médico. Surreal!

Hoje de bem com a própria aparência (“Eu me amo, mas não me acho bonita”, desconversa), ela faz o estilo básico: jeans, tênis, blusinha e cara lavada, conforme a gente vê na TV. E evita maquiagens marcantes e roupas sensuais.

— É o meu jeito… Não consigo me arrumar muito. Tenho uma amiga que é consultora de imagem e pega no pé. No meu guarda-roupa, tenho só um vestido para ir a casamentos e uma roupinha mais social… Nenhuma peça sexy! — garante, tímida, mas admirando-se no espelho a cada troca de roupa para este ensaio: — Só vocês mesmo para me deixarem assim!

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Texto e produção executiva: Naiara Andrade

Fotos: Guito Moreto

Produção de moda: Rodrigo Barros

Beleza: Gabriel Ramos

Assistente de beleza: Ibrahin Salim

Agradecimento: Flores Lu Figueiredo



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