‘Faces Negras’: Isaac Silva recuperou a história para construir moda com brasilidade | G1 15 anos

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    O estilista Isaac Silva, 32 anos, ainda era uma criança em Barreiras (BA) quando teve seu primeiro contato com a moda. Ele (ou ela, como preferir) passava “manhãs, tardes e algumas noites” na casa de Morena, uma costureira que era amiga da família. “Morena de verdade, que é a mulher branca de cabelo preto”, pontua.

    “Sempre achei mágico as pessoas chegarem com um metro de tecido, e Morena transformá-lo em roupa. Sentada na máquina, transformar aquele tecido num sonho. Eu achava muito mais mágico do que os trabalhos das outras pessoas”, relembra.

    Quando cresceu, enfrentou os desafios de quem se forma fora do eixo Rio-São Paulo e quer criar vestimentas com brasilidade e representatividade — a moda a que ele foi apresentado tinha, sobretudo, referências brancas. Mas também conquistou a admiração de cantoras, atrizes e políticas, negras, cis e trans, que se tornaram aliadas na valorização de sua arte.

    Isaac se define como uma pessoa não binária, ou seja, se refere a si mesmo no masculino e no feminino, assim como pode ser chamado de ele ou de ela (por isso, as variações de gênero ao longo do relato abaixo).

    No mês em que completa 15 anos, o G1 traz uma reflexão sobre temas impactantes para o país e a evolução deles ao longo dos tempos. Na primeira reportagem especial, ‘Faces Negras’, conversamos com personalidades de variadas gerações que superaram as barreiras do racismo. São relatos de histórias e experiências que envolvem a cor da pele, a luta contra o preconceito, as dificuldades e o orgulho de ser preto. Conheça Adriana, Babu, Daiane, Fábio, Fatou, Glaucia, Isaac, Ivanir e Luciane.

    Estilista Isaac Silva — Foto: João Bertolini

    “Eu tive meu primeiro contato com moda na infância, em Barreiras, a 800 quilômetros de Salvador. Eu passava sempre as manhãs, as tardes e algumas noites na casa de uma grande amiga da família, que chama Morena.

    Sempre achei muito mágico as pessoas chegarem no ateliê com um metro de tecido, e Morena transformar aquele metro de tecido em roupa. Era muito mais mágico do que os outros trabalhos das outras pessoas. Eu pensava: “Nossa, quero muito fazer isso”.

    Na adolescência, fui morar em Salvador e sempre gostei de ter revistas, de saber a história da moda. Em 2006, decidi fazer uma faculdade de moda, ainda em Salvador. Foi onde eu me vi sendo uma das únicas pessoas pretas daquele espaço, onde nunca foi falado sobre brasilidade ou como fazer uma moda brasileira.

    Eu também não tinha grandes referências de pessoas negras na moda, porque em todos os cursos que eu fiz, não só as duas faculdades, nunca apresentavam uma referência negra. Eu queria saber quem foi uma “Channel negra”, quem foi um “Dior” negro.

    Então, fui pesquisar e encontrei o Luiz de Freitas, que ainda é vivo e mora no Rio de Janeiro. Ele teve uma marca muito famosa chamada Mister Wonderful, lançava tendência na moda nacional, e quase não se fala sobre ele.

    Outra grande referência é a Ann Lowe. Ela foi uma grande estilista afro-americana, que viveu seu auge nos anos 1950 e 1960. Ann Lowe fez um vestido icônico, que foi o vestido de casamento da Jacqueline Kennedy, quando ela se casou com o (John F. ) Kennedy. Ela tinha o maior ateliê de alta costura dos Estados Unidos, mas foi esquecida.

    Quando a Jacqueline Kennedy se casou, a Harper’s Bazaar e a Vogue da época simplesmente disseram que o vestido foi feito por uma “costureira afro-americana”, uma costureira negra, sem mencionar o nome dela.

    Quando as pessoas vão visitar um museu de roupas antigas, aquela tecnologia de acabamento de roupas foi criada por pessoas negras. Porque quando você pesquisa a história da moda, descobre que toda casa de pessoas brancas tinha que ter uma mulher que sabia costurar, e não eram mulheres brancas… Eram mulheres negras. Eram essas mulheres que trabalhavam nessas casas, muitas vezes escravizadas, que faziam aquelas roupas com tanto esmero.

    Então o racismo promove isso: o apagamento da história de moda feita por pessoas negras.

    Trabalhar com moda no Brasil é uma coisa muito difícil. Eu bato palma para todas as marcas que estão aí resistindo, principalmente para as marcas de pessoas pretas.

    Eu trabalhei para grandes marcas nacionais, mas esse processo foi muito doloroso. E eu nunca gostei de transformar dores em algo bonito. Eu acho que a gente tem que ter a oportunidade de acessar o mercado de trabalho sem ter que passar pelo processo “não fui contratado pelo meu cabelo, pelo meu tom de pele”.

    Foi muito difícil de o mercado me absorver por que minha primeira formação foi na Bahia. Depois eu tive que fazer outro curso superior de Moda em São Paulo. Em uma entrevista para uma grande marca, olharam para o meu currículo e falaram: “Nossa, não sabia que existia faculdade de moda na Bahia. O que você veio fazer aqui?”. E dizer ainda: “Olha, vai ser bem difícil para você, não vai ser fácil”.

    Eu nunca consegui um trabalho fazendo uma entrevista, mas fiz uma rede muito poderosa e, através desses “quem indica”, eu fui conseguindo trabalhos nesse mercado de moda. E foi assim que percebi que as grandes semanas de moda do Brasil trazia muito pouca representatividade.

    Então, para construir a marca, eu quis que ela tivesse a diversidade do nosso país. Quis mostrar para as pessoas que a gente só ganha quando fala sobre diversidade.

    Estilista Isaac Silva em seu ateliê, em São Paulo — Foto: João Bertolini

    Eu iniciei minha primeira coleção na Casa de Criadores, que é uma das maiores semanas de moda para novos estilistas da América Latina, em 2015. Lá, eu apresentei minha coleções durante quatro anos. Em 2019, recebi um convite para desfilar na São Paulo Fashion Week, que é a maior semana de moda da América Latina para grandes marcas.

    Foi aí que conheci e ganhei grandes madrinhas da minha marca. Uma das primeiras foi a cantora Luedji Luna, depois a Liniker, Elza Soares; (as atrizes)Thais Araújo, Gabi Amarantos; (as parlamentares) Erica Malunguinho e Erika Hilton…

    Eu quero vestir essas pessoas que têm essa consciência da mudança que é necessária hoje, principalmente no mercado de moda.

    Antigamente, eu me via só. Mas eu fui conhecendo grandes mulheres, grandes homens, negros e indígenas, trazendo essa diferença. É onde eu vi que a gente não está sozinho.

    Eu acredito que a mudança está acontecendo, porque a gente está mexendo na grande estrutura. Ou seja, quero me ver na publicidade, mas eu também quero ter um alto cargo dentro de uma empresa. Não é simplesmente estar na televisão, na música, na capa de uma revista. É saber quem foi o fotógrafo que fotografou essa modelo, quem são as pessoas que estão no backstage. É saber se essa empresa tem pessoas racializadas (afroindígenas) na linha de frente.

    Estilista Isaac Silva — Foto: João Bertolini

    E quando a gente fala de questões raciais, a gente tem que entender que precisamos estar juntos – inclusive de pessoas brancas. Porque quem inventou essa questão racial foi esse sistema branco, a branquitude.

    Na minha família, nunca se falou de questões raciais, mas eu sempre me enxerguei como uma pessoa negra, desde criança. Porque minha família é muito racializada – tem pessoas brancas, negras, indígenas. E eu, que sempre tive acesso ao bom ensino, era a única pessoa negra numa sala de aula, a única pessoa negra em um curso, em um restaurante. Eu nunca me intimidei com isso, mas ficava muito incomodada de saber que a sociedade em si não sentia o que eu estava sentindo, não via o que eu estava vendo.

    Então, virava para os amigos, na maioria brancos, e dizia: “Olhe, a única pessoa negra desse lugar sou eu”. E olhe que eu sou uma pessoa negra de pele mais clara. Porque as pessoas de pele retinta são totalmente tiradas desses lugares.

    Para mim, falar de questões raciais é falar de celebração sobre a vida. E quando a gente estuda a história do nosso país e dos povos negros e indígenas, eles queriam celebrar as suas vidas. Eles queriam acabar com esse genocídio, de não poder existir. E nós também queremos celebrar nossas vidas. A gente quer viver, mas ainda estamos num momento de sobreviver.



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