Fiorella Mattheis: “sempre fui feliz com meu corpo. Coloquei próteses de silicone apenas porque o mercado de trabalho pedia” – Vogue

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Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

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Fiorella Mattheis (Foto: Reprodução )

Comecei a modelar com 14 anos e minha carreira como modelo deslanchou rapidamente. Inspirada pelo mercado da época, aos 17 anos tomei a iniciativa de colocar próteses mamárias.

Tudo começou por incentivo da agência, na época, que relacionou o número do meu sutiã com a possibilidade de conseguir mais trabalhos. E assim foi. Fiz a cirurgia em abril, fui morar em Milão em maio e em junho eu voltei ao Brasil para uma grande campanha de lingerie substituindo ninguém menos que Gisele Bündchen. A partir dali uma nova porta se abriu apenas porque passei a ter seios maiores.

Porém eu só tinha 17 anos. Hoje sei que meu corpo ainda estava se desenvolvendo – menstruei pela primeira vez aos 15 anos – e não tinha uma silhueta formada. Aquela referência que estavam projetando em mim sucedeu por conta do mercado, da moda de 2005, das referências da época. Me fizeram passar pelo procedimento sem a menor necessidade, pautada por uma decisão inconsciente de uma adolescente.

Nunca tive problemas com o tamanho dos meus seios, nunca sofri bullying, não me sentia mais ou menos segura, mais ou menos sexy… era completamente feliz com o corpo que eu tinha. Coloquei a prótese de silicone apenas porque o mercado de trabalho pedia esse tipo de silhueta.

De toda forma, fiquei muito feliz com o resultado até o momento que comecei a ter problemas, de uma forma muito mascarada. Três anos depois, aos 20, passei a sofrer com episódios de displasia mamária aguda que ocasionavam febre, inchaço da mama, dores incessantes e problemas no sono. Fiz inúmeros exames que não mostravam alterações. Os médicos então passaram relacionar esses episódios com a menstruação (devido ao inchaço das mamas), alimentação e disfunção hormonal. A partir daí passei a tratar essa síndrome, mas após alguns dias as reações cessavam o que tornou muito difícil chegar a um diagnóstico por quase dez anos.

“Me fizeram passar pelo procedimento sem a menor necessidade, pautada por uma decisão inconsciente de uma adolescente”

Fiorella Mattheis

Em 2020 tive um episódio de displasia que se transformou em uma grande inflamação onde eu tive uma contratura capsular — meu organismo fez uma cápsula em volta da prótese de silicone que mudou de forma e ficou super rígida. Coincidentemente, isso aconteceu 15 dias antes da pandemia começar e precisei me medicar com injeções de cortisona até que minha dor acabasse. Quando a possibilidade de uma cirurgia surgiu, decidi durante as consultas que meu desejo era apenas extrair a prótese e não colocar outra no lugar.

Acho importante ressaltar que não quero incentivar esse procedimento. O explante de silicone não pode ser um produto. A necessidade de passar por esse procedimento deve ser relacionada à saúde e indicada por um médico. Não passe por nenhum tipo de procedimento, principalmente estético, porque o mundo está dizendo: ‘faça’.

O explante de silicone das mamas é uma cirurgia séria, que exige anestesia geral, com uma recuperação difícil e resultados que podem não ser os esperados. Muita calma nessa hora. Ouça o seu médico. Tenha essa decisão pautada em sua saúde e não na estética.

Fiorella Mattheis (Foto: Reprodução )

Fiorella Mattheis (Foto: Reprodução )

Cheguei a marcar minha cirurgia de explante para janeiro, mas peguei COVID-19. Precisei postergar a data e na primeira semana do ano de 2021 minha prótese rompeu. Durante um mês e meio tive sintomas – mal-estar, inchaço nos olhos – cujos estudos estão começando a relacionar com a síndrome do silicone.

“O explante de silicone não pode ser um produto. A necessidade de passar por esse procedimento deve ser relacionada à saúde e indicada por um médico”

Fiorella Mattheis

Em fevereiro consegui passar pela operação. Assinei um termo me responsabilizando pelo resultado e assumi alguns riscos. Meu explante foi complicado pois eu tinha uma prótese rompida e muita inflamação. Meu médico precisou fazer uma lavagem com antibiótico e retirar bastante tecido da minha mama para poder eliminar possíveis células doentes. Entretanto dei muita sorte e o resultado não poderia ser melhor. Tive uma recuperação maravilhosa, fiz fisioterapia pós-explante e usei um adesivo para melhorar a minha cicatriz. Me livrei de um problema, ganhei duas marcas embaixo do peito, mas com o tempo elas vão embora.

Atualmente meu peito é exatamente o que era, porém, menor.

Se eu pudesse dar uma dica para as meninas e adolescentes que estão achando que precisam colocar silicone seria que com essa idade ainda não sabemos direito quem somos, o que de fato gostamos, o que não gostamos. Há tanto para se viver e quanto mais trabalharmos nossa autoestima, mais vamos nos amar e aceitar do jeito que somos.

Com 33 anos, resumo que a nossa melhor versão é a que a gente tem. Obviamente precisamos cuidar da nossa alma, do nosso físico, da nossa cabeça, trabalhando para nos tornamos pessoas melhores, mas olhando sempre para o interno, para sua saúde, para suas vontades e não para satisfazer o outro.

“Era completamente feliz com o corpo que eu tinha. Coloquei a prótese de silicone apenas porque o mercado de trabalho pedia esse tipo de silhueta.”

Fiorella Mattheis

Fico feliz em ver que cada vez mais o mercado publicitário tem espaço para todos os corpos — masculinos, femininos, trans, todos os jeitos possíveis que podemos ser — e acho que essa atitude deve diminuir a pressão por procedimentos estéticos. Provavelmente se minha carreira começasse hoje, eu não teria colocado implante mamário. Que bom que estamos evoluindo.

Importante respeitar-se a decisão de quem queira passar pelo procedimento desde que essa decisão seja tomada em relação a sua vontade. Na minha história o externo mudou, a opinião do outro mudou, o mercado não precisa mais dessa silhueta.

Devemos prezar pela nossa felicidade e não pautar nossas decisões no que os outros estão esperando da gente. Teoricamente a sociedade nos diz que peitos grandes são sexys e atraentes e eu nunca me senti tão confortável e a vontade com meu corpo. Com peito pequeno, sem as próteses, fui redescobrindo meu guarda-roupa, encontrando posições para dormir melhor… hoje sou a minha melhor versão, na minha mais pura identidade, extremamente mais sexy, mais bonita e mais feliz.

Mais do que incentivar qualquer tipo de procedimento, quero levantar a bandeira da autoaceitação e do amor-próprio porque esse é o verdadeiro significado da beleza.

Fiorella Mattheis (Foto: Reprodução )

Fiorella Mattheis (Foto: Reprodução )



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