Grupos de escuta relatam aumento de procura por atendimento psicológico em 2021 | Profissão Repórter

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    Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

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    Com a piora da pandemia em 2021, grupos de analistas que oferecem atendimento psicológico gratuito afirmam que a procura por este tipo de serviço aumentou. São pessoas ansiosas por conta do medo de ficar doentes, por causa do isolamento social ou que estão sofrendo após a morte de um parente ou de um amigo para a Covid-19.

    Nesta terça-feira (27), o Profissão Repórter mostrou os impactos da pandemia na saúde mental de brasileiros. Desde o início da pandemia de coronavírus, pessoas de todas as idades buscam ajuda para combater a ansiedade provocada pelo medo de se contaminar e as angústias causadas pelo isolamento. (Assista à íntegra do programa no final desta matéria)

    Logo no começo da quarentena, o psicanalista e especialista em desenvolvimento humano Francisco Nogueira teve a iniciativa de criar uma plataforma online para oferecer acolhimento e escuta à população. No dia 20 de março de 2020, o site do “Experiência de Escuta” já estava no ar, possibilitando a qualquer pessoa agendar uma conversa por vídeo ou áudio com um dos 50 psicólogos e psicanalistas voluntários do projeto.

    Francisco Nogueira criou o projeto ‘Experiência de Escuta’ logo no início da quarentena, em março de 2020. Até hoje, mais de 5.309 brasileiros passaram pelo acolhimento online — Foto: Divulgação

    “Não é uma terapia nem psicologia online, mas um acolhimento a quem está em sofrimento”, afirma Nogueira. “Essa é uma técnica eficaz para situações de emergência, mas é preciso dar continuidade a um acompanhamento psicológico no longo prazo.” Cada sessão é individual e tem a duração de 30 minutos. Se o usuário sentir a necessidade, novas escutas podem ser agendadas – mas nunca com o mesmo profissional. O serviço é totalmente gratuito. Desde sua criação, o “Experiência de Escuta” já acolheu mais de 5.300 brasileiros.

    A psicóloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Samantha Mucci coordena o Programa de Acolhimento ao Luto (Proalu), que atende pelo SUS pessoas que perderam alguém e que sentiram necessidade de buscar um atendimento psicológico. O projeto busca oferecer um acolhimento breve ao luto através de quatro atendimentos.

    “O ideal seria oferecer uma terapia de luto de pelo menos seis meses. Mas, com a pandemia e com o número crescente de mortes e de demanda de pessoas enlutadas, buscamos fazer algo que é possível e viável”, afirma Mucci.

    Os atendimentos são online e feitos por uma equipe de psicólogos e psiquiatras voluntários. “A maioria das pessoas está sobre o impacto da morte repentina, uma crise mesmo. O acolhimento breve acolhe, cuida”, diz a professora.

    Com o aumento da procura desde o início de 2021, o programa deve crescer, com expansão da equipe e a criação de novos grupos de acolhimento. “Teve dias que a gente recebeu 210 emails. Desesperei. É muita gente em sofrimento. Perdi o sono para conseguir achar uma solução. Estamos fazendo uma parceria com psicólogos, voluntários e pesquisadores para aumentar a capacidade de atendimento”, diz Mucci.

    Para continuar funcionando durante a pandemia e atender parte da demanda crescente, o grupo “Psicanálise na Praça Roosevelt” também teve que mudar seu esquema de atendimento. Desde 2017, o grupo oferecia sessões gratuitas de forma presencial na Praça Roosevelt, no Centro de São Paulo. Com a pandemia, as sessões passaram a ser online.

    “Teve um crescimento muito grande na procura, pois muita gente de fora de São Paulo procurou. Acabamos não dando conta. Por isso, restringimos o atendimento para pessoas de São Paulo”, diz Mayara Pinto de Carvalho, uma das integrantes do grupo.

    Ela conta que o coletivo que oferece a terapia é pequeno, formado por 13 pessoas. Por isso, a capacidade de atendimento é restrita. “Chegamos ao ponto de exaustão. Aí decidimos fechar os atendimento para novas inscrições.”

    A psicanalista também conta que a pandemia trouxe mudanças no conteúdo dos atendimentos. “Antes, as pessoas traziam muitas questões relacionadas ao desemprego. Agora, vemos mais questões relacionadas à pandemia, angústias e medos de pegar a doença.”

    Além das terapias individuais, há também iniciativas de escuta em grupo, como o “Varandas Terapêuticas”, do Instituto Gerar. O psicanalista Daniel Lirio, que coordena o projeto, diz que o grupo começou no início da pandemia, em março, para tratar sobre questões que o isolamento poderia trazer às vidas das pessoas.“A ideia é as pessoas falarem e escutarem. Eu apenas faço a mediação”, afirma.

    Para ele, 2021 também trouxe um aumento de demanda. “Esse ano começou bem pesado, com as pessoas falando de perda e parentes”, diz.

    “Por causa das circunstâncias, fala-se da pandemia, do que cada um está enfrentando e como está pensando a sua vida nesses tempos. As pessoas têm angústias muito diversas. E, como é um grupo de pagamento voluntário, tem gente de todas as classes sociais. Então tem pessoas que perderam o emprego, que estão com problemas de convivência em casa, que estão isoladas e se sentindo sozinhas”, diz Lirio.

    Veja depoimentos de pessoas que buscaram atendimento em algum grupo de escuta.

    “Coração dispara, adrenalina grande”

    Eliane Marques Daher Chedier, 48 anos, professora

    “Eu encontrei [o grupo de escuta] nas redes sociais. Ele me interessou, pois, nesse momento de pandemia, venho buscando alternativas onde eu possa me sentir melhor comigo mesma.

    Sou professora e tenho trabalhado remotamente. É um trabalho puxado, mas, agora, só estamos indo duas vezes na semana na escola. Aí pensei que, já que não estou com o trabalho me ocupando o tempo todo, seria bom fazer um trabalho terapêutico.

    Eliane Marques Daher Chedier tem 48 anos e é professora — Foto: Arquivo Pessoal

    Eu tenho sentido ansiedade. O coração dispara, uma adrenalina grande. No final do ano passado, até procurei um atendimento médico porque o coração estava muito acelerado, estava com zumbido no ouvido.

    Além de ajudar nestas questões da ansiedade, falamos sobre a rotina na pandemia, mas também conversamos sobre outros assuntos. É uma oportunidade de conhecer pessoas de outros lugares, pois é um grupo muito diverso. Sou de Petrópolis (RJ), mas tem gente de São Paulo, Bahia, Pernambuco, Minas. É uma troca muito boa.”

    “Crise de ansiedade me assustou”

    Maria Conceição Oliveira, 55 anos, aposentada

    “Tive uma crise de ansiedade forte que me assustou e fugiu do meu controle. Eu atribuo à pandemia. O isolamento, a perda de pessoas próximas… Sempre fui muito ansiosa, principalmente com a saúde de filho, neto, mas nunca tinha sido assim não, de perder o controle.

    O excesso de informações às vezes prejudica. Fico com tanta coisa na cabeça. Tive Covid-19 no início desse ano, aí eu já visualizava aquelas cenas de cemitérios lotados que passam na televisão. Não teve um agravamento da doença, mas foi um processo difícil emocionalmente.

    Eu estudo psicologia, aí um grupo da faculdade comentou sobre grupos de escuta e vi a oportunidade. Era o que eu estava precisando e, de preferência, sem custo.

    Participar do grupo tem me ajudado. Vendo a fala do outro, de sofrimento maior que o seu, muda sua perspectiva. É uma troca muito interessante. Uma pessoa fala, a outra diz uma palavra de conforto.”

    “Tinha medo de ir trabalhar”

    Milena Santo Mauro, 27 anos, publicitária

    “Com o início da pandemia, comecei a ficar bem preocupada. Usar máscara, não sair de casa… Eu fiquei seis meses completamente sem sair de casa. Até mercado eu pedia por aplicativo.

    Senti muita ansiedade. Virei outra pessoa. Tem a velha Milena e tem a nova Milena, que está aprendendo a lidar com a ansiedade e a lidar com a minha própria companhia.

    Sou publicitária e saí de um emprego com carteira assinada no início da pandemia. Eu tive proposta de emprego depois. Me arrumei e não consegui sair de casa para ir para a entrevista. Tinha medo de ir trabalhar.

    Milena Santo Mauro tem 27 anos e é publicitária — Foto: Arquivo Pessoal

    Um tempo depois, um dia, fui dar uma caminhada. Vi um moço que passou do meu lado. Eu estava com máscara e tudo, mas fiquei com medo de ele vir na minha direção. Tinha um degrau e eu tropecei. Tomei um tombo e me ralei inteira. O moço começou a me ajudar, e eu ‘não, moço, tá tudo bem’, pensando que já estava contaminada porque ele pegou em mim.

    Eu fui atrás de um grupo de escuta com valor mais em conta. Comecei e foi bem interessante. Tem muita coisa que está igual para todo mundo, então a gente compartilha nossas dores. Tem gente que perdeu parente para a Covid, tem gente que voltou a trabalhar… A gente acaba se ajudando.

    Eu estou indo ao mercado e também visitei a minha família. O medo saiu um pouco. Eu continuo me cuidando, mas com um pouco mais de liberdade.”

    “12 horas na frente do computador”

    Giovanna Strengari Nanci Fluminhan, 26 anos, arquiteta

    “Nos primeiros meses, eu fiquei totalmente em home office. Por muito tempo, eu fiquei sem sair de casa, e isso me afetou muito. Eu faço uma segunda graduação durante a noite, então todas as aulas passaram a ser virtuais. Isso também mexeu com minha produtividade, tanto no trabalho, quanto nos estudos.

    Foi uma adaptação bem difícil. Eu costumo brincar que o home office foi só no primeiro mês. Depois disso, parecia que eu estava dormindo no trabalho. Minha rotina era acordar, tomar banho, ligar o computador, fazer as refeições. Eu estava passando pelo menos 12 horas na frente do computador. Foi muito ruim.

    Giovanna Strengari Nanci Fluminhan tem 26 anos e é arquiteta — Foto: Arquivo Pessoal

    Eu moro em São Paulo há nove anos, sem a minha família. É por isso também que eu procurei atendimento psicológico durante a pandemia. Uma das coisas que me afetou muito foi a forma como a minha família estava lidando com a situação.

    Por eu estar distante, eu tive uma crise de ansiedade quando minha mãe teve suspeita de Covid-19 em julho. Eu já tinha tido antes, mas fazia anos que eu não tinha crise de ansiedade. Foi um susto bem grande. E, depois da primeira crise de ansiedade, as outras vieram mais fácil.

    Eu já sabia que precisava de terapia, mas eu ficava enrolando. As outras tentativas de terapia que eu tinha feito anos antes não tinham dado certo para mim, até que eu encontrei um grupo de escuta online. O fato de ser em grupo me causou primeiro um certo receito, mas eu sabia que esse contato com as outras pessoas em um momento em que eu estava de fato muito isolada, sozinha e solitária ia ser essencial para mim.

    Eu conseguir me reconhecer nas questões do outro me ajudou a reconhecer as minhas, a entender o que era um problema e eu não tinha pensado, o que eu sabia que era um problema, mas eu não conseguia falar. Então esse encontro semanal com o grupo tem me ajudado muito com questões que eu nem achava que ia tratar tão cedo.”

    Interessados podem fazer agendamento online pelo site.

    Programa de Acolhimento ao Luto (Proalu)

    Interessados podem mandar email para [email protected] com o nome e um telefone de contato.

    Psicanálise na Praça Roosevelt

    Informações pelo chat do Facebook ou pelo e-mail: [email protected]

    Interessados podem entrar em contato pelos telefones (11) 3032-6905 e (11) 97338-3974 ou pelo email: [email protected]

    Assista à íntegra do Profissão Repórter sobre saúde mental na pandemia:



    Fonte