Instituto de Física de São Carlos estuda novo método para entrega de medicamento para tratamento de câncer de pele não melanoma com terapia fotodinâmica

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Crédito: Arquivo SCA

O câncer de pele não melanoma envolve os tipos de câncer mais frequentes no Brasil e no mundo, correspondendo a 30% de todos os tumores malignos registrados no país. O carcinoma basocelular (CBC) é o tipo mais comum de câncer de pele não melanoma, correspondendo a 70% dos casos e atingindo principalmente a população caucasiana em áreas do corpo expostas ao sol. Embora geralmente o CBC não seja um tumor que provoque risco de morte, pois tem um crescimento lento e raramente causa metástase (ou seja, não costuma espalhar para outras partes do corpo), é um tipo de doença que pode comprometer regiões anatômicas e gera outros problemas de saúde (comorbidades).

O tratamento padrão para CBC ainda é a cirurgia, o que envolve a necessidade de um centro cirúrgico e um profissional médico especializado. No Brasil, infelizmente não existe infraestrutura de saúde adequada em todos os municípios para atender a essa demanda, assim – diversos pacientes precisam viajar para receber tratamento em hospitais de referência, que estão preparados para isso – e devido à ineficiente assistência médica global, a fila de espera para atendimento é muito longa, em algumas regiões sendo superior a um ano.

Para que seja possível atender de forma efetiva a esta alta demanda por tratamento, é preciso ter uma tecnologia que seja de fácil aplicação, fácil treinamento profissional, que não exija grandes investimentos em infraestrutura e, principalmente, estar dentro da realidade econômica do país. Neste contexto, a Terapia Fotodinâmica (TFD) torna-se uma modalidade terapêutica altamente recomendada, pois, além de atender a estes quesitos, possui uma fácil introdução na realidade clínica, uma vez que o Brasil dispõe de tecnologia e de empresas nacionais tanto para o desenvolvimento do equipamento usado no tratamento quanto para a produção de fotossensibilizadores e seus precursores, que são a medicação utilizada. Além disso, a TFD é um tipo de tratamento que permite um resultado estético satisfatório e é considerada uma técnica menos invasiva que a cirurgia, possibilitando a chance tratamento a pacientes que não poderia passar por um procedimento cirúrgico devido à outros problemas de saúde pré-existentes.

A TFD consiste basicamente da interação entre uma molécula que interage com a luz (chamada fotossensibilizador), luz e oxigênio molecular presente no tecido. A fonte de luz utilizada para a iluminação deve ser específica para que possa ser absorvida pelo fotossensibilizador e com isso iniciar as reações químicas que matam as células tumorais.

O Projeto “Terapia Fotodinâmica Brasil” foi um dos principais projetos de nível nacional desenvolvidos pelo Grupo de Óptica do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) com apoio do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica(CEPOF), coordenado pelo Prof. Dr. Vanderlei Salvador Bagnato. Este projeto foi direcionado para o diagnóstico e tratamento do câncer de pele não melanoma por TFD tanto nos seus aspectos básicos (pesquisa para desenvolvimento da terapia) quanto aplicados (tratamento de pacientes). O projeto envolveu a formação clínica e, portanto, disseminação da técnica para profissionais da saúde, além da facilitação ao acesso a medicamentos e equipamentos a mais de 70 centros no Brasil, além de 10 outros países da América Latina.

Vinculado a essa iniciativa, o Centro de Desenvolvimento de Novas Terapias do Hospital Amaral Carvalho, hospital de referência no tratamento de câncer situado da cidade de Jahu-SP, é um espaço destinado ao diagnóstico e tratamento de câncer de pele em estado inicial por meio de técnicas ópticas como a TFD. Este centro é liderado pela dermatologista Dra. Ana Gabriela Sálvio e conta atualmente com a colaboração da pesquisadora Dra. Mirian D. Stringasci, a enfermeira Elisangela R. de Oliveira e a técnica de enfermagem Maira Monique da Costa. A parceria existe há mais de 20 anos com o CEPOF – IFSC-USP, e é de extrema importância no desenvolvimento de pesquisas clínicas para aplicação de técnicas mais modernas de tratamento, além de ser o centro clínico de referência para o desenvolvimento do Projeto “Terapia Fotodinâmica Brasil”.

Apesar dos resultados encorajadores e vantagens da técnica, a TFD tópica convencional para câncer de pele não melanoma (usando tratamento direto na pele, sem recursos invasivos) ainda apresenta algumas limitações que devem ser superadas para ampliar a aceitação médica na prática clínica habitual quando comparada com as tradicionais. Neste contexto, diversas abordagens vêm sendo estudadas a fim de minimizar os obstáculos existentes para a penetração efetiva de fármacos na pele; dentre elas, têm se mostrado promissoras técnicas baseadas em equipamentos de microescala, que incluem injetores de líquidos, injetores de pó, ablação térmica (uma espécie de “vaporização” térmica da lesão), injeção de alta pressão livre de agulhas, iontoforese (penetração de medicação por corrente elétrica), uso de laser, microagulhas metálicas e microagulhas poliméricas, entre outros.

Contudo, para a aceitação do paciente e eficiência na aplicação serem maiores, são desejáveis técnicas não invasivas e que permitam o controle da profundidade de entrega do fármaco. Neste contexto, uma alternativa interessante são os arranjos de microagulhas, que são minimamente invasivos e podem ser inseridos na pele de forma a perfurar o estrato córneo (camada mais externa da pele). Por suas dimensões reduzidas, entretanto, essas microagulhas não atingem terminações nervosas ou vasos sanguíneos, não causando dor ou sangramento.

De acordo com a pesquisadora Dra. Michelle Barreto Requena, a aplicação de microagulhas pode ser uma ferramenta eficiente na entrega de precursores de fotossensibilizadores, uma vez que proporciona sua distribuição de forma mais eficaz que a entrega com creme. Parte da pesquisa desenvolvida em sua tese consistiu na elaboração, caracterização e aplicação de microagulhas dissolvíveis para TFD. As microagulhas dissolvíveis, por sua vez, são microagulhas compostas por polímeros em que um determinado fármaco é incorporado e que, após aplicação na pele, se dissolvem liberando o princípio ativo. O modelo de microagulhas dissolvíveis contendo ácido aminolevulínico (fármaco que induz a produção de fotossensibilizador nas lesões) foi desenvolvido durante o estágio da pesquisadora na Queen’sUniversityof Belfast em Belfast na Irlanda do Norte, sob co-orientação do Professor Dr. Ryan F. Donnelly, o que permitiu trazer a tecnologia para o Brasil.

O número de trabalhos publicados utilizando microagulhas poliméricas vem crescendo mundialmente ao longo dos anos. Por ser uma técnica que apresenta versatilidade na incorporação de fármacos, os resultados deste estudo podem permitir maior entendimento acerca da fabricação das microagulhas. Com isso, será possível explorar o desenvolvimento e a aplicação de microagulhas contendo moléculas de outras medicações como os fotossensibilizadores, contribuindo com outras pesquisas desenvolvidas no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica(CEPOF) / Grupo de Óptica do IFSC-USP.

Com os resultados provenientes do projeto de pós-doutorado da Dra. Michelle Requena, sob supervisão da Profa. Dra. Cristina Kurachi, espera-se expandir essa investigação para um estudo clínico inédito envolvendo esta tecnologia de aplicação de microagulhas dissolvíveis em TFD. Este estudo conta com a colaboração direta do pesquisador Dr. José Dirceu Vollet Filho e do Prof. Dr. Sebastião Prataviera, ambos também do CEPOF – IFSC/USP. A evolução desta pesquisa para um estudo clínico permitirá importante contribuição para o tratamento de lesões de pele, que pode ser um aspecto determinante para o estabelecimento da TFD como modalidade terapêutica acessível e eficaz na medicina brasileira, particularmente no Sistema Único de Saúde.

Parte da equipe de pesquisadores e colaboradores do Centro de Desenvolvimento de Novas Terapias do Hospital Amaral Carvalho em Jahu-SP, da esquerda, Michelle B. Requena, Elisangela R. de Oliveira, Layla Pires, Maira Monique da Costa e Ana Gabriela Salvio.

Parte da equipe de pesquisadores e colaboradores do Centro de Desenvolvimento de Novas Terapias do Hospital Amaral Carvalho em Jahu-SP, da esquerda, Michelle B. Requena, Elisangela R. de Oliveira, Layla Pires, Maira Monique da Costa e Ana Gabriela Salvio.

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