O perigoso caminho que mulheres trans trilham para cirurgias estéticas no Brasil – Revista Marie Claire

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Fevereiro de 2021. Lorena Muniz, mulher trans, nordestina, estava sedada quando a clínica de estética onde colocava próteses de silicone nos seios, em São Paulo, pegou fogo. Ela havia viajado 2.600 quilômetros de sua cidade, Recife, para realizar o sonho de, com peitos femininos, adequar seu corpo a sua identidade de gênero e ser respeitada. No corre-corre, Lorena não foi retirada do local a tempo de se salvar. Depois de ter o corpo parcialmente queimado e inalar uma quantidade significativa de fumaça, foi levada às pressas ao Hospital das Clínicas. Dias depois, a morte cerebral foi confirmada. Lorena tinha 25 anos.

O barulho que essa tragédia causou não foi pequeno. Graças ao emocionante depoimento que seu marido, Washington Barbosa, em luto, publicou, a história viralizou na internet e ganhou a adesão de importantes líderes da causa. Caso da deputada Erica Malunguinho (PSOL-SP), primeira mulher trans na Assembleia Legislativa de São Paulo, eleita em 2018. Em entrevista ao UOL, Erica disse com todas as letras que o caso de Lorena parte da trágica realidade que pessoas trans enfrentam. A vereadora Erika Hilton (PSOL-SP), que, desde o início deste ano, inaugurou a presença de trans negras na Câmara Municipal, também se manifestou em entrevista ao mesmo portal: “Vi muitos casos de morte e sequelas graves, mas há subnotificação. Não existe sequer um protocolo, uma política pública, para apurar casos do tipo”. Com a repercussão, a família da vítima recebeu o apoio de advogados da Defensoria Pública durante a investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, ainda em andamento.

Implantes de silicone, feminilização facial, retirada do pomo de adão. Para muitas mulheres trans, as cirurgias plásticas ultrapassam a pura estética: são condição para a sobrevivência. O preconceito e a falta de recursos, no entanto, muitas vezes as direcionam para clínicas sem os cuidados básicos que precedem as intervenções invasivas – mesmo sabendo estar correndo risco de morte (Foto: Efe Godoy)

Mas o episódio de Lorena, infelizmente, não é isolado. Muitas pessoas na mesma condição morrem quase diariamente sem serem notadas. Para ter uma ideia, o Brasil é líder no ranking de países que mais matam pessoas trans no mundo. De acordo com dossiê da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 175 travestis e mulheres transexuais foram assassinadas em 2020. Um levantamento da Gênero e Número, com base em dados obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan, parte do Ministério da Saúde) via Lei de Acesso à Informação, aponta que, em média, 11 pessoas trans foram agredidas por dia em 2017. “Reduzem Lorena a uma mulher trans, imagem um tanto quanto desumanizada, e não é isso que ela era. Era doce, determinada, tinha a ambição de ganhar o mundo”, diz o viúvo. Conforme conta, as próteses, adquiridas após meses de trabalho em eventos, como cabeleireira, maquiadora ou drag queen, simbolizavam uma espécie de anteparo à objetificação para Lorena. “Ela tinha consciência de que era bela. O que queria [com a cirurgia] era passar na rua despercebida, e não ouvindo gracinhas”, afirma.

Antes de chegar ao ponto em que Lorena vira símbolo do que não pode se repetir, porém, é importante diferenciar o seu desejo de colocar próteses de silicone do de mulheres cisgênero que buscam esse tipo de procedimento. “Lorena era pobre e operou, como muitas trans, não necessariamente porque acha bonito ter peito, mas para ser respeitada em sua condição feminina”, defende a psicanalista e ativista feminista Manuela Xavier. “Não tem a ver com autoestima, tem a ver com sobrevivência.” Para Manuela, é fundamental levar em conta a diferença que a classe social faz em episódios assim. “Ela era uma mulher que juntou as moedas para fazer a cirurgia. Não com um médico renomado ou ao menos regularizado. Ao contrário. A clínica, conhecida por atender mulheres trans de periferia, tem um histórico de promover deformações e, ainda assim, é procurada”, pontua. “Quando o sistema capitalista absorve os corpos desviantes, é meramente por dinheiro.”

O Processo Transexualizador foi criado em 2008, a partir de uma portaria do Ministério da Saúde. Em geral, a rede pública faz até dois procedimentos por mês, velocidade que não dá conta de uma demanda reprimida. Só em 2018, existiam quase 300 transgêneros na fila do SUS à espera de plásticas para deixar o corpo mais alinhado ao modo como se veem e querem ser vistos. Essa lentidão e falta de perspectiva fazem com que essas pessoas recorram a procedimentos pagos, em clínicas particulares de conduta duvidosa, que cobram bem menos do que a média do mercado – e acharam no público trans um nicho de mercado. Comandada por Paulino de Souza, um homem branco que se dizia administrador do local, a clínica onde Lorena foi operada é famosa na comunidade trans pelos preços modestos [procuramos por Paulino de Souza, mas tanto seu telefone quanto o da clínica não estão autorizados a receber chamadas]. “Dentro desse cenário, acredito que Lorena também teria morrido se não fosse trans”, diz Tatiana Moura, cirurgiã plástica há 16 anos, que fundou, em 2018, o Projeto Trans Metha, também coordenado por ela. O programa reúne médicos de diversas especialidades e psicólogos dispostos a acolher, tratar e operar homens e mulheres, com dignidade e sem diferenciação entre cis e trans.

“Ela foi operada em um lugar com condições insuficientes e por um profissional que nem sei se é médico”, afirma a médica [Marie Claire apurou que Paulino de Souza não está cadastrado na plataforma da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, cláusula obrigatória para executar cirurgias desse tipo]. Culpa não só da transfobia, como do preconceito de classe – equação que resultou na disseminação de clínicas de “fundo de quintal”, isentas dos cuidados básicos exigidos pelos procedimentos cirúrgicos. “Ela talvez só estivesse lá por ser marginalizada socialmente, mas aceita naquele contexto. Mesmo com seu pouco dinheiro”, reforça Tatiana. Em um cálculo rápido de quanto Lorena gastaria para fazer procedimentos semelhantes em um hospital comum (prótese + médico + assistente + internação + anestesista + exames + medicamentos), chega-se a um resultado aproximado de R$ 11.700. Ela pagou R$ 4.000, economia que lhe custou a própria vida.

 (Foto: Efe Godoy)

(Foto: Efe Godoy)

“Não transformo homem em mulher”

Bárbara Aires, 37 anos, consultora de gênero e diversidade e digital influencer, foi operada na mesma clínica escolhida por Lorena, em 2010. “Não é porque nos atendem que esses médicos são mais humanos. O que eles buscam é oportunidade, até porque as trans pagam à vista”, avalia. “A gente vai a esse tipo de lugar porque está cansada de ouvir coisas como: ‘Não transformo homem em mulher’, um raciocínio datado, que deveria ter ficado nos anos 1980. Entre esperar na fila do SUS ou ir para a Europa, como muitas trans faziam dez anos atrás, acabamos optando pela cirurgia em locais como esse”, completa.

Haja vista sua própria história. Em 2008, Bárbara tentou fazer plástica via SUS e não teve sucesso. Dois anos depois, recorreu à clínica que matou Lorena e colocou próteses de silicone nos seios. Recebeu alta médica tão logo os efeitos da sedação passaram, pois, segundo ela, não existia área de observação para pacientes recém-operados no local. “Também não fui informada de que não poderia tomar nenhum tipo de analgésico na véspera da cirurgia e tomei um comprimido para dor de cabeça, que afina o sangue.” Por esse motivo, conta, a colocação das próteses, que deveria durar 40 minutos, levou duas horas. Bárbara sofreu hemorragia e precisou de três bolsas de sangue – o mais comum é usar apenas uma em casos semelhantes.

Bárbara Aires, 37 anos, consultora de gênero e diversidade e digital influencer, foi operada na mesma clínica escolhida por Lorena, em 2010 (Foto: Arquivo pessoal)

Bárbara Aires, 37 anos, consultora de gênero e diversidade e digital influencer, foi operada na mesma clínica escolhida por Lorena, em 2010 (Foto: Arquivo pessoal)

A médica que operou Bárbara, conhecida como doutora Rosa (sem sobrenome indicado), não conseguiu mexer no nariz e no pomo de adão, procedimentos agendados para a mesma data. “Eles estavam dispostos a fazer as três operações de uma vez só. É algo carniceiro, que só acontece porque ninguém sente falta de uma mulher trans. Somos completamente desumanizadas”, afirma. Para ela, esse tipo de atendimento continua acontecendo porque algumas trans nunca tiveram problema com cirurgias nesses lugares – por pura sorte, diga-se.

As três operações feitas por Bárbara estão entre as mais desejadas pelas mulheres trans no que se refere à aparência, além da “feminização” ou “feminilização facial”, que oferece mudanças na mandíbula e no queixo e pode custar até R$ 50 mil. Nos homens trans, há resultados notáveis com o uso de hormônios, como o crescimento de pelos e voz mais grossa, e a plástica mais comum é a mastectomia, ou retirada das mamas, o que também reduz o custo total da mudança corporal.

Apesar da alta demanda, Tatiana, médica do Trans Metha, relata que a maioria dos colegas de profissão recusa pacientes trans. “Tenho uma amiga que simplesmente não atende. Quando eu perguntei a razão, ela disse que é um público difícil. ‘Como assim difícil?’, pensei. E aí tomei essa para mim. Se alguém na minha sala de espera se incomodar com um transgênero ali, essa pessoa não me interessa”, diz. Para a cirurgiã, no entanto, as plásticas não deveriam ser instrumento contra a violência, a população é que precisa ser educada para não reproduzir preconceitos. “Uma peruca cara, uma roupa bonita ou uma cirurgia bem-feita não as torna imunes à agressão. Uma pessoa como a Tifanny [Abreu], do vôlei, de condição social melhor que a maioria, passa por isso também.”

Transfobia mata

Rosa Luz é artista visual, rapper e influenciadora digital, e foi operada no fim de fevereiro, assim como Lorena (Foto: Arquivo pessoal)

Rosa Luz é artista visual, rapper e influenciadora digital, e foi operada no fim de fevereiro, assim como Lorena (Foto: Arquivo pessoal)

Sou uma travesti de 25 anos e tinha vontade de colocar prótese de mama desde os 17. Mas, como venho de um contexto periférico, não tinha condições de fazer a cirurgia. Economizei ao longo de todos esses anos para realizar o procedimento de forma segura. No entanto, a transfobia e a violência direcionada aos corpos trans são tão grandes que, muitas vezes, preferimos correr risco de morte. E nós morremos.

Fazer terapia foi fundamental para entender que essa era uma vontade própria e não uma imposição social. Muita gente se incomoda com a liberdade do outro em querer modificar sua aparência. Sinto isso no dia a dia, em questionamentos, olhares, críticas.

Na clínica em que fui atendida, em Brasília, na companhia de minha mãe, o médico explicou que não há muitas diferenças no procedimento em corpos de mulheres cis, trans e travestis – dúvida comum entre minhas seguidoras no Instagram. Infelizmente, a anestesista foi transfóbica e se dirigiu a mim usando o pronome masculino, mas preferi não falar nada. Precisava confiar nela naquele momento de vulnerabilidade. Só pensava que não queria morrer colocando silicone, o que, infelizmente, é uma realidade no país em que vivemos.

A maioria dos profissionais da saúde ainda enxerga o gênero por uma perspectiva genitalizante e reduz nossas subjetividades. Cada corpo é um universo e sinto-me feliz com o meu.

Rosa Luz é artista visual, rapper e influenciadora digital, e foi operada no fim de fevereiro, assim como Lorena.



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