Paciente fica cega após fazer plástica e acusa cirurgião

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Shirin começou a perder a visão no dia seguinte à alta. Dias depois, ela buscou um hospital, onde foi detectado quadro de anemia, e recebeu quatro bolsas de sangue, segundo seu advogado (Foto: Divulgação)

Os áudios enviados para o médico que, dias antes, tinha realizado sua cirurgia plástica já mostram o desespero da gerente de vendas Shirin Saraeian, de 40 anos: “Eu não posso ver nada. Eu tenho duas filhas. Por favor, me ajude”.

A iraniana naturalizada brasileira perdeu a visão total do olho esquerdo e parte do direito após passar por uma abdominoplastia e lipoescultura, realizada no dia 30 de abril, em São Paulo, onde mora. Ela, agora, acusa o cirurgião plástico, que atuou por muitos anos no Estado, pelo seu quadro irreversível.

O advogado de Shirin, Rodrigo Martini, apresentou na última semana pedido de inquérito policial ao Ministério Público paulista. Como o caso ainda está em análise no órgão, o nome do médico não está sendo citado na reportagem.

Para o advogado, não é o caso de erro médico, mas de crime de lesão corporal gravíssima com dolo eventual, em que o cirurgião assumiu o risco de causar o resultado.

Para isso, o advogado explicou que a defesa ouviu dois peritos e eles chegaram à conclusão de que os sinais vitais de Shirin após a cirurgia já indicavam que exames simples deveriam ter sido pedidos, já que indicavam anormalidade.

“Após a cirurgia, ela já reclamava de tonturas e mal-estar à equipe e ao médico. Ele disse que era normal e deu alta, sem solicitar exames que poderiam ter detectado precocemente a anemia aguda em razão de uma hemorragia”.

O advogado contou que, um dia após a alta, a visão do olho esquerdo já começou a escurecer, assustando a gerente de vendas. “Ela entrou em contato com o médico, por mensagem, e com uma pessoa da equipe. O médico demorou 15 horas para responder e, depois, disse que ela deveria usar um colírio e procurar um oftalmologista”.

Dias depois, Shirin foi a um hospital onde a anemia foi detectada, e tomou quatro bolsas de sangue. “Ela perdeu o emprego e precisa de funcionária para ajudar com as filhas, pois o marido vive em outro país”.

No Espírito Santo, o médico capixaba já responde a várias ações, na Justiça, relacionadas a erros médicos. No País, um levantamento apontou que são mais de 40 processos, em vários estados.

Feridas abertas

Entre os casos contra o mesmo médico que tramitam no Estado está o de uma jovem que passou por lipoaspiração e implante de silicone. O advogado da paciente, Flávio Fabiano, diz que a vítima pede há dois anos à Justiça reparação por danos morais, materiais e estéticos.

“Após a cirurgia, ela teve de ficar seis meses de cama, pois o bico do peito e a lateral do corpo continuavam sangrando, com feridas abertas. Nas mensagens, ele dizia ser normal, inicialmente. Depois de seis meses, ele fez outra cirurgia, no Rio de Janeiro, mas os problemas continuaram”, contou o advogado. Até hoje, a jovem sofre com deformidades, segundo ele.

Médico parou de atuar no Estado e se mudou para o Rio

Apesar de ter atuado por muitos anos no Espírito Santo, o cirurgião plástico, acusado por uma paciente da perda de sua visão, não está atendendo mais no Estado.

De acordo com o advogado especializado em Direito Médico, Celso Papaleo, que representa o cirurgião, por escolha pessoal, o profissional decidiu se mudar para a cidade do Rio de Janeiro.

“Essa escolha foi tomada única e, exclusivamente, por motivos de ordem pessoal. Ele se encontra apto a exercer sua profissão normalmente no Espírito Santo”.

Com relação ao caso da gerente de compras Shirin Saraeian, o advogado relatou que a alta foi realizada pelo próprio médico, assistido pela enfermeira-chefe da clínica.

Celso Papaleo ressaltou ainda que, no momento da alta médica, a paciente apresentava um quadro clínico compatível com o que se espera de uma paciente submetida a um procedimento cirúrgico do porte que foi realizado e que, inclusive, recebeu a alta médica “sem nenhuma queixa”.

Em relação aos processos judiciais, o advogado argumenta que viralizou no País a judicialização da medicina. “É um fenômeno social que incita a propositura de processos judiciais em face de profissionais da saúde, sem que haja, a rigor, fatos que comprovem os alegados erros médicos. Inclusive, os processos atribuídos ao cirurgião não representam nem 0,2% dos procedimentos cirúrgicos”.

Apesar de haver vários processos contra o seu cliente, Papaleo afirmou que “na imensa maioria”, houve o julgamento favorável ao cirurgião.

“O número de procedimentos realizados diariamente varia. Não sei ao certo o número de procedimentos realizados em um único dia, mas, certamente, tudo é feito dentro das regras emanadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e em obediência ao intervalo necessário entre um procedimento e outro”, disse.

O advogado ainda acrescentou que a medicina não é uma ciência exata e que sempre há riscos inerentes a todo e qualquer procedimento.

Sobre o profissional, o Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) informou que ele não atua mais no Espírito Santo, já que se mudou para outro estado.


Entenda


Denúncias em vários estados

Cirurgia

  • No dia 30 de abril, a gerente de vendas Shirin Saraeian, 40, passou por uma abdominoplastia e lipoescultura, realizada por um médico capixaba, que está atuando no Rio de Janeiro e em São Paulo.
  • Ela contou que conheceu o médico pelas redes sociais.

Início de sintomas

  • Após a cirurgia, ela contou que começou a se sentir mal e ter tonturas. Afirma que relatou à equipe e ao médico, que disseram ser normal. No dia 1º de maio, ela teve alta.

Vista escurecida

  • No dia 3 de maio, após perceber a vista escurecendo, Shirin relatou o caso, por mensagens, para o médico e uma pessoa da equipe dele. O médico, após 15 horas, teria pedido que ela usasse colírio, tomasse remédio e procurasse um neuro-oftalmologista.

Internação

  • No dia seguinte, buscou a emergência de um hospital, onde foi detectado quadro de anemia profunda, causada por hemorragia, decorrente da cirurgia. Foi diagnosticada com “neuropatia óptica isquêmica” (lesão do nervo óptico devido à obstrução de sangue), provocada por anemia.

Sinais

  • A defesa da iraniana procurou dois peritos, que concluíram que, pelos sinais vitais apresentados pela paciente após a cirurgia, como taquicardia e perda de fluidos fora da normalidade, seria necessário que o médico solicitasse exames complementares simples de sangue que poderiam ter detectado já a anemia.

Defesa

  • A defesa de Shirin pediu na última semana ao Ministério Público de São Paulo a instauração de inquérito policial. Para a defesa, houve crime de lesão corporal gravíssima, em que o médico assumiu o risco de provocar o resultado, uma vez que o médico “adota um padrão de cirurgia massificada sem priorizar o atendimento pós-operatório e a integridade dos pacientes”.

No Estado e no País

  • O cirurgião responde a vários processos no Espírito Santo e a mais de 40 em diversos estados do País relacionados a erros médicos.

Fonte: Advogado Rodrigo Martini e pesquisa AT.



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