Pessoas trans buscam terapias alternativas diante da escassez de unidades especializadas e fila de espera no litoral de SP | Mais Saúde

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    A busca por mudanças físicas durante a transição de gênero tem feito, há anos, com que pessoas transexuais procurem terapias hormonais especializadas. As nove cidades da Baixada Santista, no litoral de São Paulo, contam com apenas um ambulatório referência que oferece acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com diversas restrições e uma longa fila de espera. Além disso, durante a pandemia de Covid-19, o atendimento foi suspenso, segundo a Prefeitura de Santos.

    O G1 ouviu três pessoas que apontam cenários distintos que as fizeram buscar pela automedicação em algum momento de suas vidas. Uma especialista ouvida pela reportagem afirma que a medida não é adequada e pode trazer sérias consequências.

    Segundo eles contam, a dificuldade de acesso aos serviços públicos de saúde adequados, de modo geral, os fizeram recorrer a meios alternativos e menos seguros para manter a transição de gênero com terapia hormonal. Em um dos casos, o acompanhamento profissional veio após graves problemas de saúde causados pela automedicação.

    Uma moradora de Praia Grande, que preferiu não se identificar, é exemplo disso. Hoje com 29 anos, ela se automedica com hormônios comprados sem prescrição médica em farmácias da região. “Queria muito saber o que estou colocando em mim”, diz, em relação à insegurança que cerca o método que escolheu seguir.

    Por um tempo, ela tentou procurar assistência especializada, mas não conseguiu. “Tem uma fila de dois anos, parece, para conseguir [atendimento no ambulatório]. A cidade precisa entender que tem demanda e fornecer mais tratamento especializado”, reclama.

    Ela conta que se automedica em um lugar clandestino, e que paga, em média, R$ 150 por aplicação. “É tudo muito rápido, toda vez. Não me deixam ler ou ver as coisas que estão injetando em mim. Gostaria muito de saber”.

    Acompanhamento por nutrólogo

    Thales do Carmo Simão, de 32 anos, já passou por acompanhamento no ambulatório especializado, no Hospital Guilherme Álvaro, há alguns anos. No entanto, pela dificuldade de conciliar o trabalho com as consultas – que só podem ser agendadas às segundas-feiras, durante a tarde -, precisou abandonar o tratamento pelo hospital e buscar outra alternativa.

    “Eu perdia o dia de serviço no escritório quando ia às consultas”, diz. Hoje, o acompanhamento é particular, por meio de um convênio médico disponibilizado pela empresa onde trabalha desde antes da transição.

    Ainda assim, encontrou dificuldades. “Os endocrinologistas não sabiam nada sobre o assunto, não sabiam como proceder com documentações, o tipo hormônio que eu deveria tomar, e assim vai”, explica. Ele recorda, ainda, os pedidos de laudo de disforia de gênero, que não é mais necessário para o tratamento no Brasil.

    Atualmente, ele é acompanhado por um nutrólogo que, segundo conta, se disponibilizou a estudar sobre o assunto para ajudá-lo durante o tratamento.

    Thales explica que, agora, compra seus remédios com prescrição médica, porém, com uma facilidade maior do que o esperado. “É perigosamente acessível para as pessoas ministrarem [o medicamento hormonal] de forma inadequada”.

    Ele avalia, ainda, que, caso estivesse sendo atendido pelo sistema público, talvez estivesse mais atrasado no tratamento. “Correndo por fora, eu consegui alcançar coisas que, no serviço público, talvez ainda estivesse aguardando”, comenta.

    Mesmo assim, seu desejo é que o serviço seja oferecido pela rede pública. “Caso amanhã eu perca esse emprego, não vou ser assistido da maneira como sou hoje”, diz.

    Hipertensão na adolescência

    Uma mulher de 58 anos, que também preferiu não se identificar, é acompanhada pelo ambulatório da região desde 2015, quando ele foi inaugurado. Moradora de Santos, ela procurou ajuda médica após um susto que sofreu enquanto se automedicava, e hoje é defensora do atendimento.

    “Fui uma das primeiras pessoas a participar [do atendimento pelo ambulatório]”, relembra. “Na adolescência, eu me automediquei. Hoje, sou uma pessoa hipertensa por conta disso. Conheço pessoas que amputaram a perna acima do joelho por conta disso”.

    “O ambulatório não é um lugar para a pessoa buscar hormônio, mas um lugar específico para a saúde das pessoas. Fazemos baterias de exames lá, e entre as especialidades, tem o endocrinologista”, diz, defendendo a importância do atendimento especializado. “Mas, as longas filas de espera pelo tipo de tratamento adequado também afastam as pessoas que precisam”.

    “O ambulatório é um lugar onde há respeito, de acolhimento. É um lugar onde você se sente respeitada, você se sente acolhida. Ninguém quer saber sobre a sua personalidade, as pessoas querem saber sobre a sua saúde”, diz.

    Riscos da automedicação

    Em entrevista ao G1, Elaine Maria Frade Costa, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, falou sobre os riscos que a aplicação clandestina, ou mesmo a automedicação, podem trazer ao corpo humano ao longo do tempo.

    No caso das mulheres trans, os hormônio usados são os estrógenos e antiestrogênicos, que inibem os resquícios de testosterona do organismo. Conforme a especialista, estrógenos sintéticos têm efeitos colaterais e podem causar coagulação sanguínea, acidente vascular cerebral (AVC) e até mesmo perda de membros por trombose.

    No caso dos homens trans, o hormônio usado é a testosterona. O principal efeito colateral, conforme a especialista, é o aumento das células vermelhas no sangue. “Isso torna o sangue mais viscoso, formando coágulos que podem se desprender, levando a um derrame, AVC, embolia pulmonar ou trombose”, explica. “As mesmas consequências que as mulheres sofrem, porém, por um mecanismo etiológico diferente”, completa.

    O único ambulatório público referência à saúde das pessoas transexuais na Baixada Santista fica em Santos, dentro do Hospital Guilherme Álvaro, que pertence à rede estadual. No entanto, de acordo com a Prefeitura de Santos, o atendimento foi suspenso devido à pandemia.

    Procurada pela reportagem, a Secretaria de Saúde do Estado não se manifestou acerca dos questionamentos enviados sobre fila de espera, serviços ofertados e volume de procura.

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