Quando Santos recebeu uma ‘carga’ de noivas japonesas

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Porto de Santos, quinta-feira, 23 de abril de 1959. O dia mal tinha amanhecido e o cais do porto santista já estava apinhado de gente. Dezenas de famílias estavam próximas ao armazém de bagagens aguardando a atracação do “América Maru”, que vinha de uma longa viagem, de 53 dias, desde Yokohama, na Terra do Sol Nascente.

A bordo do navio nipônico vinha uma “carga” especial, que chamou a atenção do inspetor da Alfândega quando este, ainda no largo da barra, questionou o comandante a respeito do que estava sendo trazido ao Brasil. “Hanayome”, dissera o comandante exibindo um sorriso malicioso.

O brasileiro conhecia o equivalente japonês para vários nomes de cargas, mas aquele lhe era novidade. É que “hanayome” significa “noivas”, e entre os trezentos e cinquenta passageiros da embarcação, vieram doze jovens “casadas por procuração” em sua terra natal justamente com jovens japoneses que aqui haviam desembarcado três anos antes para conhecer de perto as possibilidades de trabalho na agricultura ou em diferentes ocupações no comércio ou na indústria.

Chegados como imigrantes, os moços haviam sido incorporados à Cooperativa Agrícola de Cotia e nela encontraram condições de trabalho e ganho que os autorizavam assumir, entre outras coisas, o compromisso sério do casamento.

Desta forma, logo que o “América Maru” atracou e amarrou-se ao cais, lágrimas escorriam dos dois lados, dos olhos dos que estavam em terra e dos que vinham a bordo do navio. A notícia do desembarque inusitado logo percorreu o cais e despertou a curiosidade dos brasileiros. Muitos aventaram e até apostaram que testemunhariam a decepção dos homens nipônicos em terra, ao verem suas esposas, acreditando que o casamento fora às cegas. Ledo engano. Os rapazes, que estavam muito bem vestidos, sapatos lustrosos e cabelos alinhados, já conheciam suas mulheres e elas também os conheciam.

Assim, após o cumprimento de todo o protocolo de desembarque, às 11 horas, deu-se finalmente o encontro dos namorados. Mas quem imagina que eles correram um na direção do outro e ficaram rodopiando de maneira efusiva, imaginou errado. Não houve beijos, nem “chuva de arroz”, nem alianças, nem ao menos apertos de mão. O que houve foi apenas um cumprimento respeitoso de um aceno de mão e reverência.

Porém, eles estavam no Brasil, onde algumas novas regrinhas poderiam ser incorporadas. Assim, à moda ocidental, as recém-casadas brindaram com taças de champanhe o encontro com os maridos e algumas autoridades que foram até Santos recebê-las, como o cônsul-geral do Japão, sr. Uyeno, o sr. Kiyomi Ohira, diretor-gerente da Cooperativa Agrícola de Cotia, o sr. Otávio Teixeira Mendes Sobrinho, diretor do Departamento de Imigração e Colonização no Estado de São Paulo, e o sr. Gilberto de Carvalho Pimentel, chefe da Inspetoria de Imigração em Santos.

Estudante do Científico

Entre os jovens que aguardavam ansiosamente na beira do Cais de Santos estava o lavrador Sadatsugu Tamura, de 27 anos. Ele aguardava com expectativa a chegada de sua esposa Mitsuko Tamura, de 25 anos.

Ambos haviam sido colegas de estudos em Saitama-ken. Concluído o curso equivalente ao científico no Brasil, Tamura partiu para estudar mecânica. Mas, não tendo melhores oportunidades no Japão, resolveu ir para Brasil, na qualidade de imigrante, para trabalhar em São José dos Campos numa fazenda da Cooperativa Agrícola de Cotia.

Quando alcançou condições de unir-se em matrimônio com sua amada, enviou procuração para o casamento para poder trazer a sua Mitsuko. Tamura já tinha preparado tudo: móveis, casa e todos os pertences.

Perguntando se ia casar no religioso, declarou: “Nós casaremos só no civil. Se o patrão quiser casaremos no religioso”. Ao seu lado estava Hideo Isezaki, de 24 anos, de Morro Grande, proximidades de Cotia. Falante, desconfiado, “arrastando” o português, estava à espera da sua esposa Shinoe, de 23 anos. Ambos nasceram em Kotchi-Ken e sempre trabalharam na lavoura. Suas famílias eram conhecidas e estavam certas de que haveria felicidade na união dos dois.

A vedeta do porto

Entre as doze moças, havia uma que se destacava. Usando um chapéu elegante, ela chamou a atenção dos repórteres que cobriam aquele fato inusitado. A moça era Yumiko Nibino. Muito sorridente, ela empunhava uma máquina fotográfica e parecia ser a mais feliz de todas.

Ao contrário de suas colegas, ela chegou a correr para encontrar-se com o marido, Katsuhiko Nibino, de 25 anos, lavrador do sítio Nishimoto, em São Roque. Yumiko tinha 21 anos, era filha de lavradores e conheceu Nibino em Kin-Ken. Por sua alegria, Yumiko foi apelidada pelos fotógrafos e cinegrafistas como a vedeta do Porto de Santos. Era, sem sombra de dúvida, o par mais fotogênico do dia.

Casais em festa

Após deixarem a área do porto, os noivos e os convidados foram para o Hotel Ushio, que ficava na Rua Braz Cubas, onde estava instalada a sede do Atlanta Futebol Clube. Alí, no terraço do prédio, se reuniram os casais: Hideo e Shinoe, Katsuke e Mitiko, Shiguemitsu e Mitsuko, Shunzuke e Moyo, Kazuyoshi e Etsuko, Miyoko e Fugio, Eikiti e Junko, Ktsuji e Satoyo, Itio e Mariko e Katsuniko e Yumiko.

Durante o almoço oferecido pela Colônia Japonesa de Santos, com direito a comidas típicas do Japão, como makizushi (folhas de algas marinhas com arroz enrolado, peixe em conserva, ovos); kombu (algas marinhas); camarão gigante; saladas à moda nipônica e sashimi (peixe cru em fatias), iniciou-se uma série de discursos, como os do cônsul Uyeno, do sr. Teixeira Mendes Sobrinho, do DIC e do sr. Kiyomi Ohira, diretor-gerente da Cooperativa Agrícola de Cotia.

Depois do almoço as esposas recém-chegadas ao Brasil foram levadas a conhecer a cidade de Santos e à tardinha rumaram para São Paulo, de onde seguiram para os sítios onde seus maridos já estavam alocados. Nove ficaram em terras paulistas, dois foram para o Paraná e um para o Rio de Janeiro.

Texto e ilustração publicados originalmente no site Memória Santista



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