Saudade marca vida das famílias de 12.922 vítimas da Covid no ES

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Mortos pela Covid-19 já receberam homenagens na Praia de Camburi, em Vitória. Crédito: Plenária contra a Covid-19

A pandemia causada pela Covid-19 trouxe mudanças, em maior ou menor medida, na vida de toda a sociedade, que aos poucos começa a retomada da vida social e dos reencontros com pessoas queridas. Mas, para milhares de pessoas, as marcas dessas transformações impostas há quase dois anos serão ainda mais difíceis de curar. São familiares e amigos dos 12.922 mortos pela doença no Espírito Santo, que relatam a dor e a saudade por tantas perdas, sentidas ainda mais nesse 2 de novembro, Dia de Finados.

É o caso da Débora Pereira dos Santos, de 45 anos, que sente a dor pela morte da mãe Almiracy Pereira, de 64 anos. Ela relembra, com saudade, que a mãe era uma mulher alegre, gostava de viajar e de reunir a família em volta da churrasqueira e da piscina, preparadas especialmente na casa para receber seus três filhos e seis netos, sempre em clima de festa e muito amor.

Dona Almiracy Pereira é uma das vítimas da Covid-19
Alegre e espírito jovem: Almiracy Pereira foi uma das vítimas fatais da Covid-19. Crédito: Arquivo da família

Débora Pereira dos Santos

Filha de uma das 12.919 vítimas da Covid-19

“Minha mãe era 10 anos mais jovem do que eu. Muito ativa, sempre gostou de festas, passeios, reunir os netos e os filhos. Passava a mão nas chaves do carro e não tinha hora para voltar, o que ela amava era curtir a vida, e o maior medo dela era a morte. Agora, ficou essa perda que tem sido difícil demais para todos nós. É muita saudade e uma dor profunda, que esta semana tem ficado muito mais difícil. Sentimos como se a morte pudesse ter sido evitada, talvez, se ela tivesse se vacinado antes. Chegando o Dia de Finados, pensamos em tantas coisas que gostaríamos de fazer, e não podemos fazer nada. Vamos levar flores para o túmulo dela, ela amava flores”

O caminhoneiro Cristiano Vilaça (à direita) deixou mulher e dois filhos
O caminhoneiro Cristiano Vilaça (à direita) deixou mulher e dois filhos. Crédito: Arquivo da família

Mas a dor da família não para por aí, pois eles sentem ainda a morte do primo, Cristiano Vilaça, de 41 anos, que morreu devido às complicações pela Covid-19 apenas quinze dias antes da morte de Almiracy, em 21 de março. Ele era caminhoneiro, casado e pai amoroso de dois filhos, deixando ainda só saudades para a pequena netinha Kiara, de dois anos. Foram duas perdas seguidas para a família, que vai passar o primeiro Dia de Finados após as mortes de Almiracy e Cristiano.

Outra família transformada para sempre pela pandemia é a da Valéria Lima de Araújo, que perdeu o marido no dia 28 de junho do ano passado. O mecânico industrial Luiz Moreira, 62 anos, deixou nove filhos, sendo seis do primeiro casamento e três com Valéria: o jovem Vanderson, de 25 anos, e os gêmeos Lorenzo e Evellyn, de 13 anos.

Luiz Moreira com a família: saudades todos os dias
Luiz Moreira com os filhos e a mulher: saudades todos os dias. Crédito: Arquivo da família

Valéria Lima de Araújo

Perdeu o marido vítima de Covid-19

“Todos os dias são difíceis, mas todo dia 28 (data da morte de Luiz) e Finados é ainda mais, porque acabamos revivendo tudo aquilo. É um momento triste de homenagem, mas é a forma que podemos fazer”

Os gêmeos tiveram atendimento de psicólogos, que os ajudaram a terem forças para lidar com a morte repentina e prematura do pai, além de buscarem amparo na religião. Hoje os dois têm menos medo de saírem de casa, algo que não faziam antes.

“Evitávamos ver notícias sobre mortes de Covid, para não lembrarmos da própria perda que tivemos. Mas tudo lembrava ao Luiz, que montou toda a casa, cada tijolo. Ele era uma pessoa maravilhosa, que só deixou boas lembranças. Sempre pensamos em como Luiz gostaria que ficássemos bem, é o que nos dá força”, diz Valéria, que vai com os gêmeos visitar o túmulo do marido nesta terça. 

Além da saudade, Valéria tem ainda a sensação de que o marido foi antes da hora. “Tinha muito ainda o que viver. Teve a vida interrompida por esta doença”, lamenta.

O QUE DIZ A SESA

Para o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, é também lamentável o número de mortos em decorrência da Covid-19 no Espírito Santo, mas destacou que a doença jamais foi subestimada ou tratada como algo menor por ele e sua equipe, e que sempre prevaleceu o temor de que famílias perdessem seus entes queridos.

“No período antes da vacina, montamos uma estratégia de distanciamento para mitigar o alastramento da doença. Infelizmente não conseguimos envolver todas as camadas da sociedade, mas conseguimos reduzir e muito os impactos, pois poderíamos ter chegado a 25 a 30 mil mortos. Nada, no entanto, vai tirar a dor e o abalo dos familiares das 12.922 pessoas que morreram. Essas perdas não podem ser naturalizadas”, ressaltou Nésio.

Ele frisou ainda que garantir a imunização beneficia a coletividade. “Às pessoas que não se beneficiaram da vacina ou não ficaram protegidas suficientemente a ponto de evoluírem a óbito, nossa homenagem é que possamos nos vacinar e tomar as medidas necessárias de cuidados na pandemia.”

Durante a entrevista, Nésio Fernandes se emocionou ao lembrar dos momentos mais difíceis da pandemia. “Lembro e fico consternado quando chegamos a perder até 80 pessoas por dia. É triste, como seres humanos, como profissionais da saúde que somos, em especial neste Dia de Finados, quando lembramos das almas dessas pessoas. Que seja também um momento para refletirmos e lembrarmos que, mesmo com a retomada, em memória de todos eles, possamos aprender e não cometer os mesmos erros no futuro”, finalizou o secretário. 

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