Tribuna do Norte – Campanha ajuda vítimas de incêndio

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Bruno Vital

Repórter

A história das gêmeas Cassiane e Kauane da Silva, que sobreviveram a um incêndio quando tinham apenas dois anos e meio, vem comovendo pessoas por todo país e gerando uma rede de solidariedade. Uma “vaquinha” online criada em parceria com o site Razões para Acreditar arrecadou cerca de R$ 228 mil em cinco dias, três vezes mais do que a meta inicial. A ideia da família, que vive em Felipe Camarão, Zona Leste de Natal, é utilizar o dinheiro para custear os tratamentos psicológico e dermatológico de Cassiane e Kauane, além do irmão Gabriel, que presenciou o incidente.

Créditos: Alex RégisDinheiro arrecadado em vaquinha do site “Razões para Acreditar” será usado para tratamento psicológico e dermatológico para a família das gêmeas

O incêndio, que queimou 70% do corpo de Kauane e 25% do de Cassiane, ocorreu em junho de 2014, durante os festejos juninos. As chamas foram provocadas por cobrinhas, um tipo de fogo de artifício tradicional dos festejos de São João. Elas são filhas de Ana Madalena da Silva e têm mais três irmãos: Felipe, Pablo e Gabriel. Ana conta que no momento do incêndio havia deixado as duas meninas sob os cuidados de Gabriel antes de ter saído de casa para fazer a troca de uma sandália. À época com 11 anos, Gabriel brincava com o irmão Felipe, que tinha cinco, dentro de casa.

Sem perceber que uma das cobrinhas tinha escapado e corrido para debaixo da cama do quarto das irmãs mais novas, Gabriel foi tomar banho. Foi neste momento em que ele foi avisado das chamas por Felipe. Eles escaparam do fogo, mas não conseguiram resgatar Cassiane e Kauane e foram pedir ajuda na rua. “Nessa hora eu cheguei e estranhei os dois na rua sozinhos e perguntei o que tinha acontecido e eles disseram que o quarto delas estava pegando fogo”, relembra Ana. Com a casa tomada pelas chamas, em um ato de desespero e heroísmo, Ana entra no local e consegue salvar Cassiane. Por causa do fogo alto e da fumaça, ela não consegue retornar para pegar Kauane e começa a gritar por socorro.

Um vizinho de Ana ouviu o apelo e rapidamente entrou na casa pelo telhado e resgatou Kauane, que teve quase todo o corpo afetado pelo fogo. “Quando eu vi a casa pegando fogo eu só pensei em salvar minhas filhas, foi na base do desespero mesmo”, diz Madalena, que também sofreu queimaduras de terceiro grau e precisou passar por cirurgias e sessões de fisioterapia. “Hoje também tenho muitas cicatrizes, mas primeiramente agradeço a Deus por estar viva e ter salvo as minhas filhas, que é o mais importante”, afirma.

Recomeço

Dos cinco filhos, apenas Pablo, de 19 anos, não vive com a mãe. Ana Madalena segue morando no bairro de Felipe Camarão com as gêmeas Cassiane e Kauane, hoje com nove anos; Felipe, de 12; e Gabriel, que tem 17. A mulher de 41 anos se separou do pai das meninas e se mudou da casa onde o incidente foi registrado. Segundo relato, ela tomou a decisão por causa de constantes brigas com o ex-marido, que acusava o enteado Gabriel de ter sido o culpado pelo incêndio. “Ele humilhava muito meu filho, dizia que não queria mais ele em casa, que ele não era da família, e que era o culpado pela situação”, diz.

A relação conturbada com o padrasto gerou um sentimento de culpa em Gabriel, que o persegue até hoje. Assim como as irmãs, ele será incluído nas sessões de psicoterapia, que serão financiadas pelo dinheiro arrecadado na vaquinha. A mãe conta que, há sete anos, as gêmeas sofrem na pele e na mente as consequências do episódio. Isso porque o bullying com a aparência das garotas e os constantes olhares atravessados acabam fazendo com que o trauma seja revivido, provocando retrocessos psicossociais no processo de assimilação do caso.

“É um trauma muito grande e elas são crianças, então é muito mais difícil. Até mesmo na escola, na igreja, as outras crianças ficam com medo delas, são chamadas até de monstro. A Kauane, por exemplo, que é a que teve o corpo mais queimado tem vergonha de sair, se acha feia e diz que não quer tirar foto. Ela chora por causa disso”, relata Ana. Atualmente, a família se mantém com um benefício social de cerca de um salário mínimo. É com essa renda que Ana Madalena se desdobra para pagar alimentação e quitar o aluguel do imóvel. “É muito difícil porque é pouco dinheiro e muitos filhos. Durante um período também catei latinhas na rua com Cassiane e às vezes recebemos doações e assim vamos vivendo. O benefício só dá mesmo para pagar o aluguel e comprar umas coisinhas para elas”, explica.

Rede de apoio viabilizou cirurgia em 2018

Ainda em 2014, a história das gêmeas se cruza com a do cirurgião plástico Charles de Sá, que se tornou uma peça fundamental para a recuperação das meninas. O médico, membro fundador da Sociedade Brasileira de Queimaduras, conheceu Cassiane e Kauane por meio de um tio, que por sua vez ouviu o relato pelo pai das meninas quando trabalharam juntos. Charles de Sá conta que desenvolve trabalhos filantrópicos em suas clínicas “utilizando a cirurgia plástica como transformador social” e logo se comoveu com o caso.

“Na época eu examinei as meninas e na Kauane, que era a mais queimada, constatamos muitas deformidades e sequelas de queimaduras. As marcas impossibilitavam ela de comer, o olho ficava aberto e corria risco de cegueira, pescoço colado no tórax, o braço esquerdo todo retraído por causa das queimaduras, além de sequelas na face, boca e nariz. Era uma criança exilada em seu próprio corpo. Então eu fiquei com essa história na cabeça, pensando em como poderia ajudar porque precisaria de uma equipe multidisciplinar”, lembra.

Durante um atendimento em seu consultório no Rio de Janeiro, Charles levou o caso para um antigo professor, especialista em queimados, que falou da existência de uma associação carioca que patrocinava cirurgias do tipo. “Juntamos minha equipe e a equipe desse professor, o Luiz Mário, e a gente operou essa criança. A cirurgia foi um sucesso, nós conseguimos realizar várias operações num tempo cirúrgico só. Tudo funcionou bem, foi uma energia muito boa, as equipes eram grandes e estavam todas mobilizadas. As coisas fluíram de uma maneira que eu nunca vi igual”, conta.

Depois da intervenção, que aconteceu em 2018, Kauane seguiu em recuperação até voltar para Natal. Os custos de hospitalização, que ficaram em torno de R$ 10 mil, foram quitados pela associação carioca. Já as passagens aéreas foram pagas por uma campanha da Associação Amigos do Coração da Criança (Amico), que segue contribuindo com os atendimentos fisioterapêuticos das garotas. Em 9 de setembro, Kauane retornará ao Rio de Janeiro para fazer a segunda etapa do procedimento, desta vez para corrigir as lesões do braço direito. “As equipes já estão se mobilizando. Vamos finalizar essa parte das cirurgias funcionais, que foram importantes para ela andar, comer, viver, ou seja, coisas básicas. Ela ainda precisará fazer outras cirurgias de reposicionamento da face”, explica o médico.



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