Um ano é muito tempo: enfrentando o câncer de mama na pandemia – Revista Marie Claire

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Lima & Santana Propaganda, sua agência de publicidade e propaganda em Santos

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Era 15 de outubro de 2020, quando Lionete, ou melhor Lili, 37, estava em casa assistindo a uma novela após um longo dia de trabalho. No intervalo, uma propaganda de conscientização contra o câncer de mama chamou a sua atenção. Nunca havia levado a sério aquele tipo de campanha, mas lembrou de sua amiga de infância, Erica, vizinha no bairro de Tomás Coelho, no Rio de Janeiro, que morreu com apenas 33 anos após ter sido diagnosticada com a doença.

Por curiosidade colocou a mão nos seios e começou a tatear a pele. Seu peito bateu mais rápido quando sentiu um nódulo do tamanho de uma bolinha de gude no seio direito. Devia ter uns 5 cm. Achou estranho nunca ter reparado nela. Ligou para a mãe, Lusinete, que pediu a Lili que se acalmasse. Isso era comum entre as mulheres da família. “São pequenos nódulos que desmancham com remédios. Não esquenta a cabeça”, disse à filha.

Sua cabeça estava a mil, pensou que não veria os filhos crescer. A imagem de Erica também ocupava os pensamentos. Lembrou que o marido da amiga estranhou o fato de que estava saindo uma secreção da mama da ex-companheira, então pediu que fossem ao médico. Ele só soube do resultado um ano depois, com a morte prematura da esposa. Encontrou os resultados dos exames escondidos, Erica manteve o silêncio sobre a doença por um longo período.

Lili dispensou os conselhos da mãe e no dia seguinte marcou uma consulta com uma mastologista para dali uma semana. A ultrassonografia era de praxe, ao menos uma vez ao ano. Já a mamografia, pensava, deveria fazer após os 40 anos.

Lionete durante o tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

Em 15 de novembro saiu o resultado da biópsia: era maligno. Foram nove meses de tratamento, totalizando seis sessões de quimioterapia até reduzir o nódulo, 10 de rádio, duas cirurgias para retirada do tumor e 11 vacinas para imunidade a cada 21 dias – que continua recebendo. O momento mais difícil foi durante a quimio. “Ficava três dias de cama, pensava que ia morrer de tanta dor.” Aos poucos foi se recuperando e o conforto que recebeu da família lhe ajudou a aguentar o turbilhão.

“Meu cabelo caiu, mas não emagreci nem 1kg, e todos os outros exames de rotina estavam normais. Apenas fiquei bastante abatida. O que me ajudou foi o apoio da minha família e amigos. Nunca fiquei sozinha nesse tempo.” Ela acredita que a curiosidade foi sua grande aliada no combate ao câncer e mesmo diante do desafio de um isolamento compulsório, pôde seguir com o tratamento.

A condição de Lili, contudo, parece se diferenciar de uma ampla parcela da população feminina. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) houve uma redução de 41% nos exames de mamografia entre 2019 e 2020, um total de 1.054.556 na mamografia de rastreamento (quando não há sinais da doença).

Uma pesquisa da mastologista Jordana de Faria Bessa, publicada na Revista de Saúde Pública, estima que 4 mil mulheres podem ter ficado sem saber do diagnóstico positivo. O número está longe do real, já que se limita aos dados da rede pública, do DATASUS.

A recomendação do Ministério da Saúde é que a mamografia seja feita por mulheres na faixa de 50 anos para cima, apesar de lei de 2008 que prevê o acesso ao exame pelo SUS a partir dos 40.

A mastologista Priscila Marshall faz uma ressalva: “Quando há alto risco na família, a recomendação é iniciar o rastreamento com mamografia 10 anos antes da idade em que a pessoa da família foi diagnosticada.”

A cada ano são 60 mil casos positivos a mais, segundo indicadores do Inca. O câncer de mama é o tipo mais comum entre mulheres no mundo.

“Trata-se de uma doença que preocupa a maior parte das mulheres, por afetar toda a sua vida em diversos aspectos.”

Priscila Marshall

“A mama não é um órgão ‘essencial’ ao nosso corpo (podemos viver sem ela), porém, sua ausência ou doença traz uma série de preocupações e desafios.  Ela é parte essencial da mulher no que diz respeito a sua estética corporal, a sua sexualidade e a sua maternidade.”

Priscila tem um jeito bastante didático de explicar o que é a doença às suas pacientes. “Costumo dizer que o câncer nada mais é do que um defeito celular. Nossa células do corpo estão sempre se multiplicando. Às vezes, nasce uma célula errada e geralmente nosso organismo dá conta de eliminar essa célula.  Quando nossa imunidade não consegue fazer isso, ela começa a se multiplicar”, explica.

“A característica principal da célula do câncer é que se multiplica mais rapidamente do que as células normais, de forma desordenada, e tem uma capacidade de invadir nosso sistema linfático e, em seguida, nosso sangue.”

A doença não é letal quando se limita à mama, o maior problema é quando atinge os outros órgãos fundamentais, como é o caso das metástases para pulmões, fígado e sistema nervoso. “Aí não falamos mais em cura, mas em controle da doença, que se tornou sistêmica.”

Por esse motivo, o diagnóstico precoce é importante, diz. Não é comum as mulheres buscarem espontaneamente uma consulta de mastologia, normalmente são encaminhadas por outra especialista quando há suspeita.

Desigualdade no acesso ao diagnóstico

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde sobre dados de 2019, publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 42% das brasileiras entre 40 e 59 anos tinham feito o exame clínico um ano antes. Entre as que têm mais de 60, a taxa cai para 31%.

O mesmo estudo mostra que há uma disparidade no acesso aos exames conforme aumenta a renda per capita. As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de mulheres que nunca fizeram mamografia.

“Em câncer de mama, não falamos em prevenção primária, mas em rastreamento.” A pandemia, entretanto, criou obstáculos para qualquer esforço nesse sentido. Se antes já existia apreensão com o tempo para marcar uma consulta pela rede pública, pela falta de equipamentos – há 2 mil mamógrafos disponíveis no SUS em todo o país, equivalente a 1,3 para 100.000 habitantes– e de profissionais para realizar a avaliação, somaram-se o medo da covid-19 e maiores reservas em sair de casa, inclusive para ir a uma consulta médica.

“Ficamos preocupadas porque parte delas corre o risco de descobrir tardiamente a doença, o que pode, até mesmo, sobrecarregar o sistema. Quanto mais tarde, mais difícil será enfrentar as etapas do tratamento, que será mais agressivo. Sem falar naquelas que tiveram que interromper os cuidados em março de 2020”, afirma Regina Célia Barbosa, gerente de causas do Instituto Avon, organização social que tem como uma de suas causas disseminar informações sobre o câncer de mama, além de oferecer serviços de saúde.

No Brasil a legislação garante à mulher com suspeita de câncer o prazo de até 30 dias para realizar os exames pelo Sistema Único de Saúde. Quando confirmada a neoplasia maligna, a paciente tem o direito de iniciar o tratamento em até 60 dias.

Célia reforça a importância de que as pacientes sejam munidas com o máximo de informações para que exijam seus direitos. Mesmo numa crise sanitária como a qual enfrentamos, “o combate ao câncer deve ser prioritário”.

Diagnóstico e gravidez de risco

Regiane com o marido, a filha e o filho recém-nascido (Foto: Arquivo pessoal)

Regiane com o marido, a filha e o filho recém-nascido (Foto: Arquivo pessoal)

Assim como Lili, Regiane, 37, também foi diagnosticada na pandemia. Ela começa a conversa adiantando que não havia nenhum caso na família, amamentou os 3 filhos normalmente. Percebeu o nódulo pois gostava de dormir de bruços e sentiu um leve incômodo na região, mas quando tocava parecia não existir nada.

Moradora de São Bernardo (SP), estava iniciando o trabalho de telemarketing em uma empresa, onde teria direito a um plano de saúde. Aproveitou para fazer uma série de exames. Sua ginecologista fez o pedido da ultrassonografia, que constou o nódulo. A médica disse que era um simples e que bastaria o acompanhamento após seis meses.

“Fiquei incomodada com aquilo. Marquei com um mastologista e graças à minha curiosidade descobri.” Mesmo depois da biópsia, o resultado não constava como câncer, mas lesões mamárias com atipia. O mastologista sugeriu que tirassem o nódulo. E aí foi que veio a confirmação.

“Com 15 dias saiu o resultado do anátomo patológico que era um câncer triplo negativo. Fiquei triste, pensei nos meus filhos. A palavra câncer remetia à morte para mim.” Não bastasse a notícia, descobriu que estava grávida no meio da pandemia.

“Foi tudo muito rápido porque a minha gestação passou a ser de alto risco. Um câncer grave, totalmente agressivo. Aguardamos o terceiro mês para iniciarmos a quimioterapia.” O foco passou a ser todo na gravidez, foi isso que a ajudou a não desanimar. Com o tempo foi ficando mais tranquila.

Na segunda sessão de quimio, seu cabelo começou a cair. Achou melhor raspar de vez. O filho Giovani, 20, ficou responsável pela tarefa. Na oitava sessão de quimio branca precisou interromper o tratamento para fazer o parto com 37 semanas de gravidez. Heitor, 5 meses, nasceu com a saúde perfeita, frisa, mas Regiane não pôde amamentar. “Do hospital, ele já saiu com a fórmula de leite, que aceitou super bem.”

Depois da quimio, da cirurgia e das sessões de radioterapia, soube que estava curada. “Já finalizei o tratamento, hoje faço acompanhamento com mastologista e oncologista e continuo com a medicação.”

Barreiras da pandemia

Michelle teve o diagnóstico em maio de 2020. Era o segundo câncer que precisava tratar nos seus 34 anos. Em 2010, teve câncer de tireoide. Em função disso, faz ultrassom todos os anos, mas não passava pela sua cabeça descobrir um tumor no seio.

“Não é comum abaixo de 50 anos ter câncer de mama. Nós nunca achamos que vai ser com a gente, principalmente quando não está na idade. Quem é que vai no mastologista?”

Sentiu durante o banho. Era 11 de maio, lembra. Marcou uma consulta para nove dias dali. Fizeram o ultrassom e acharam que tinha algo de errado. Como tinha feito cirurgia de redução de mama há  algum tempo, achou que poderia ser fibrose. Então acharam melhor puncionar (fazer corte). O médico disse que se voltasse para casa, demoraria para conseguir marcar o exame, então aconselhou que esperasse ali mesmo. E assim o fez.

No dia 28 recebeu o diagnóstico positivo. As barreiras da pandemia começaram a aparecer. O médico estava atendendo apenas uma vez na semana. Ligou desesperada insistindo por um encaixe. Por sugestão do recepcionista, apareceu no consultório e ficou aguardando. Em seguida, fez outro exame para saber o tipo, o Core Biopsy. Era hormonal.

“O meu era grau 2, invasivo, não estava mais localizado, já estava próximo à região do seio, tinha atingido alguns tecidos.” Não quis contar para ninguém, pois precisava ter controle de como resolveria a situação, não queria se sentir sufocada por preocupações.

Os desgastes pareciam não acabar durante o tratamento. “Teve um momento, além da revolta e de toda negação, que eu comecei a me estressar demais com o meu mastologista pois nunca tinha vaga. Isso me angustiava. E ele esqueceu de pedir o exame de covid-19 quando já tinha tudo liberado para fazer a cirurgia. Tive o diagnóstico em maio, a cirurgia estava marcada para 20 de julho. Quando cheguei para fazer a consulta anestésica, o médico pediu o exame. Aqui em Salvador quase não tinha locais para fazer o teste e também não teria o resultado em tempo hábil.”

Decidiu então mudar de médico, mas teve dificuldades. O segundo sugeriu que retirasse as mamas. Essa opção a deixou assustada. Foi atrás de uma terceira opinião, mas esse especialista lhe pareceu extremamente antiético. Sem saber o que fazer, procurou um geneticista, que por sua vez, indicou um cirurgião. Já era agosto. “O médico me disse ‘nós não podemos mais perder tempo’.”  Fez a cirurgia no dia 18 de agosto. Em seguida, decidiu que era hora de congelar seus óvulos, pois não queria abrir mão do sonho de ter filhos. Juntou suas últimas reservas e foi até São Paulo para fazer o procedimento no Hospital Pérola Byington. Tudo pelo SUS, diz.

Michelle Dumas durante o tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

Michelle Dumas durante o tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

Assim como Lili e Regiane, Michelle faz tratamento oral, depois de ter feito a quimio e a radioterapia.

“Estou na menopausa induzida, não posso menstruar para o câncer não voltar. Sinto fadiga e ainda estou aprendendo a lidar com o meu corpo. Tem dias que tenho muita energia e outros que parece que passou um trator por cima de mim. Preciso aceitar essa nova condição.”

Os efeitos dos remédios que deve tomar pelos próximos cinco anos não são nada fáceis. Sente dores nas articulações e não pode deixar de fazer exercícios ou se alongar, caso contrário estará enrijecida no dia seguinte. Seu remédio, conta rindo, é atividade física. Escolheu uma das mais pesadas: crossfit.

Apesar das dores e das dificuldades nesse percurso, mantém o otimismo e uma opinião inabalável: “Precisamos falar do câncer não só para os pacientes. Nem tudo na vida passa, mas a gente aprende a lidar e se adaptar. Prevenir é importante para ter um diagnóstico e cuidar de uma doença que é curável. O diagnóstico precoce é vida.”

Nota do repórter: O contato com as mulheres foi a partir da indicação do Instituto Avon e da Associação Recomeçar.



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